Jana Zelibská – Pagamento na entrega, 1978

A arte feminista da década de 1970 na Coleção Verbund

Por Redação

Um fino fio preto envolve um rosto feminino até cobri-lo na perturbadora sequência fotográfica Selbst (Eu mesma, 1975), de Annegret Soltau. Os liames do patriarcado e o efeito de deformação, simbolizados pelo ato de enrolar o fio no próprio corpo, questionavam o aprisionamento social da mulher num período atravessado pela repressão dos regimes de exceção que assolavam o mundo.

Na série performática Isolation (Isolamento, 1972), Renate Eisenegger fixa algodão e fita primeiramente sobre a boca e depois sobre o nariz, os ouvidos e os olhos, concluindo o envolvimento com as mãos atadas à cabeça. Diferentemente de Soltau, que corta o fio na 13ª imagem, Eisenegger reflete com mais pessimismo sobre o cerceamento da comunicação e da ação feminina representado na obra.

Essas e outras questões centrais para o movimento feminista dos anos 1970 estão presentes nas obras de um conjunto de mulheres artistas da Europa Ocidental, do Leste Europeu, dos Estados Unidos e do Japão na exposição Insurgências – Vanguarda Feminista da década de 1970: obras da Coleção Verbund, em exibição no MAC USP, em São Paulo. A partir de uma perspectiva de subversão e radicalidade em relação aos padrões vigentes, essas artistas se utilizaram do corpo e da autorrepresentação como forma de protesto contra as estruturas de poder patriarcais, o sexismo, a homofobia e as desigualdades sociais, raciais e de gênero.

Com curadoria de Gabriele Schor e Ana Magalhães, a mostra apresenta a produção pioneira de artistas feministas que fazem parte da Verbund Collection, de Viena, complementada por obras do acervo do museu. Por meio dos recursos da fotografia, do vídeo, da performance e do cinema, essas mulheres desafiavam as formas de opressão à liberdade feminina, tendo, na maioria das vezes, o próprio corpo como centro da expressão artística. Confrontavam o olhar voyeurístico que as reduzia a objetos de desejo, tanto na vida cotidiana quanto nas representações recorrentes de corpos nus femininos na história da arte.

A fotografia Cash on delivery (Pagamento na entrega, 1978), da artista tcheca Jana Zelibská, registra uma mulher semidespida agachada e embalada em plástico, como um produto a ser despachado. Outro exemplo é a alemã Ulrike Rosenbach, que combina sua imagem com a representação de cânones femininos da arte como Vênus e Medusa, além da Supergirl, da cultura pop, na obra Weiblicher Energieaustausch (Troca de energia feminina, 1975/1976).

A atriz e locutora de rádio sérvia Katalin Ladik criticava os ideais de beleza vigentes, amplamente disseminados pela indústria publicitária do pós-Segunda Guerra. Na performance Poemin, Ladik pressionava o rosto contra uma placa de vidro gerando deformações. Já a americana Emma Amos tinha que lidar com a interseccionalidade no feminismo, a discriminação combinada entre raça e gênero. Única integrante mulher do coletivo afro-americano Spiral, Amos encontrava no corpo uma forma de expressar autoconfiança e igualdade social, como na gravura Pool Lady (Senhora da piscina, 1980).

Muitas artistas recorriam à ironia e aos jogos de representação para enfrentar as questões de identidade, permitindo ao espectador analisar como eram percebidas por elas mesmas e pelo mundo, tanto pessoal como coletivamente, sempre a partir de uma perspectiva estética feminista. A austríaca Renate Bertlmann, na performance Schwangere Braut im Rollstuh (Noiva grávida em cadeira de rodas, 1978), encena uma mulher grávida vestida de noiva que é empurrada pelo público em uma cadeira de rodas. Dando à luz o bebê e o abandonando durante a ação, Bertlmann tensionava o debate sobre como ser artista e mãe ao mesmo tempo numa sociedade patriarcal.

A Verbund Collection é a coleção de arte contemporânea da empresa de energia austríaca Verbund AG. A mostra, que já circulou por diversos países desde 2010, está sendo exibida pela primeira vez fora do circuito europeu.


Insurgências – Vanguarda Feminista da década de 1970: obras da Coleção Verbund

Curadoria: Gabriele Schor e Ana Magalhães
Até 28 de junho
MAC USP – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo
Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 – Ibirapuera, São Paulo
De terça a domingo, das 10h às 21h
Entrada e estacionamento gratuitos
http://www.mac.usp.br/mac/index.asp