Wanda Pimentel_Sem título, 1966. Créditos: Eduardo Ortega

O Bestiário Fantástico de Wanda Pimentel

A galeria carioca Carpintaria apresenta até o dia 25 de outubro Wanda Pimentel – Percurso em preto e branco, com uma série de desenhos produzida pela artista entre 1965 e 1967.

Um dos principais atrativos da exposição é o ineditismo desse conjunto de trabalhos. Animais Preto e Branco estiveram guardados no acervo de Pimentel durante todos esses anos, e são exibidos pela primeira vez em sua totalidade. É possível que tenham sido apresentados isoladamente em algum salão ou mostra coletiva, mas nunca de forma integral. Agora, juntos, os desenhos ganham força e presença, e potencializam a proposta da artista de explorar, em preto e branco, o excesso.

Dentro de uma reflexão puramente especulativa – uma vez que não há registros de comentários da artista sobre esse processo –, os desenhos parecem experimentos gráficos, como se Pimentel testasse nessas composições caminhos, possibilidades e limites para o desenvolvimento de seu trabalho futuro. O período de produção da série coincide com a época em que frequentava as aulas de Ivan Serpa, no MAM Rio. Sob a orientação livre e o olhar rigoroso do professor, a jovem fundamentava ali as bases de seu percurso artístico.

Os animais retratados em nanquim e caneta hidrográfica, sobre papel ou cartão, são envoltos em um emaranhado de linhas de variadas espessuras, curvas e volteios; e seus corpos, ao mesmo tempo que abrem um espaço dentro do todo, tornam-se parte dele. Presos nessas teias de linhas, os animais possuem características próprias, não são representados de forma realista ou fidedigna, ao contrário, têm algo de fantástico e onírico, remetem a ilustrações antigas, fábulas, gabinetes de curiosidades.

Não há bordas nem limites nos desenhos, e qualquer tentativa de seguir as linhas é inócua, só afunda ainda mais o espectador no emaranhado, pois elas não têm começo nem fim. O traçado é labiríntico, às vezes surge algum espaço de respiro, onde se destaca o fundo claro do papel, o que desperta em quem olha a dúvida se aquela área, livre de intervenção, é proposital ou indício de um trabalho por terminar.

Em “entrevista-conversa” a Vera Beatriz Siqueira, em 2012, Pimentel faz questão de contar um fato de sua infância. Era uma criança difícil para comer; sua mãe a levava para fazer as refeições ao lado de um formigueiro, e ali inventava histórias sobre a vida e os hábitos das formigas, dava a elas características humanas de comportamento, mencionava suas casinhas mobiliadas, suas roupinhas, e encantava a menina com o fantástico cotidiano desse minúsculo mundo dos insetos. Embora não haja menção, na entrevista, à série de desenhos Animais preto e branco, ao escrever o ensaio que compõe o catálogo da exposição, a historiadora da arte relacionou essa memória da artista aos desenhos, apontando que no verso de um deles há uma formiga: “Em seu abrigo velado, do ‘avesso’ do papel, essa formiga solta no espaço parece trazer a chave do mistério da atração da artista por esse mundo de fantasia, simultaneamente exuberante e delicado”.

Na série seguinte a Animais Preto e Branco, intitulada Do caminho ao elo sobre-humano, apesar de o preto e o branco permanecerem, a organicidade anterior dá lugar a linhas retas e formas geometrizadas. As duas séries foram produzidas com um pequeno intervalo de tempo, mas a mudança de traço e intenção é explícita. A partir daí, os trabalhos produzidos, ainda que com variações temáticas, mantêm uma coerência visual e criam uma identidade.

Entre 1988 e 2004, Pimentel fez uma nova versão da série Animais. Dessa vez, o desenho em preto e branco foi combinado com outros materiais, como tecido, madeira e poliestireno. São obras grandes, onde cobras, besouros, morcegos e polvos aparecem em espaços amplos, e não como aqueles do passado, imersos no emaranhado de linhas produzido por seu trabalho paciente e minucioso.

Contemplar a produção inicial de uma artista cuja obra é extensamente difundida e conhecida, mais do que propriamente revelar indícios de seu trabalho futuro, nos dá a chance de observar um processo de construção. Nessa fase, quando ainda não se está preso a rótulos ou estilos estabelecidos, e não há compromisso com imagem ou mercado, a experimentação goza de maior liberdade. No entanto, não se deve desprezar o fato de que já se observa, nesse conjunto, a presença de algo que permeia toda a obra de Wanda Pimentel: a questão plástica do “envolvimento”, que inclusive nomeia uma de suas séries mais icônicas, iniciada em 1968 e desenvolvida até 1984. Essas telas, em cores chapadas, sem sombras, retratam detalhes de corpos femininos no espaço doméstico, envolvidos por objetos do dia a dia, utensílios do lar e eletrodomésticos.

Pimentel construiu seu percurso artístico enxergando em aparentes banalidades uma força motriz. Dos primeiros Animais Preto e Branco, em que o gesto da mão fica explícito no desenho caótico das linhas, aos trabalhos da maturidade, nos quais a uniformidade nos traçados e na aplicação dos materiais destaca o rigor e a qualidade das composições, a artista mostrou toda a potência e poética existentes nas pequenas existências do cotidiano.


Wanda Pimentel – Percurso em preto e branco

Até 25 de outubro de 2025
Carpintaria
Rua Jardim Botânico, 971
Jardim Botânico – Rio de Janeiro
De terça a sexta, das 10h às 19h
Sábado, das 10h às 18h
Entrada gratuita
https://fdag.com.br/sobre/carpintaria

*Imagens: cortesia [courtesy]Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo/Rio de Janeiro.