Devaneios poéticos de um coletor de miudezas

Por Patricia Lattavo

Em Entomologia das quase-coisas, o artista, arquiteto e designer Leonardo Lattavo organiza expograficamente um processo iniciado na infância, quando o pequeno coletor de miudezas já transformava pedaços de arame, lascas de madeira e fragmentos de pedras em curiosos objetos que iam aos poucos povoando as estantes de seu quarto.

O que são quase-coisas? Elas não têm função, nem significado, carregam em si a liberdade do não-ser, como um Odradek, personagem de Kafka, aquele que “ri como só algo que não tem pulmões é capaz de fazer”.

Misturando plástico, metal, sobras de impressão, pedaços de cerâmica e componentes eletrônicos com elementos orgânicos como pelo de gato, penas de galinha d’angola e dentes de boi, Lattavo cria peças cuja aparência e disposição no espaço remetem tanto a achados arqueológicos como a quadros entomológicos, aqueles que exibem insetos rigorosamente dispostos e presos por alfinetes.

Um elemento presente em todo o percurso expositivo é o ouriço. Leonardo conta que sempre que desenha  – e isso desde muito jovem – costuma colocar asteriscos em desenhos que lhe pareçam promissores ou boas ideias a serem desenvolvidas. O asterisco, materializado na forma do ouriço, passa a ser então um sinal de positividade que aparece, em diferentes escalas, em muitos dos trabalhos. E é um ouriço de grandes proporções a primeira obra vista ao se entrar na galeria. Seus longos espinhos se projetam em direção a quem o observa.

Em todas as peças expostas o gesto do artista é explícito, cada objeto traz muitas camadas, sobreposições. Mas há também reminiscências do arquiteto, perceptíveis na presença dos cubos, das figuras geométricas estilizadas. Algumas poderiam aludir à ideia dos casulos de Lygia Clark, que fizeram a passagem da parede para o chão. Os cubos de Leonardo também se descolam da parede, no entanto, continuam enraizados nelas. Esse enraizamento está presente em praticamente todas as obras, há uma relação de dependência entre a estrutura arquitetônica da galeria e os trabalhos que a ocupam. Por vezes as raízes brotam de dentro das paredes, rompendo-as em direção ao espaço, por vezes parecem estar ocultas, sustentando as peças que mergulham em direção ao chão sem tocá-lo.

Entomologia das quase-coisas propõe uma cientificidade imaginada, como se cada uma das obras fosse um objeto de estudo científico em exibição. Essa intenção fica ainda mais explícita em Coisário Bachelariano, um conjunto de pequenas peças dispostas em forma de grid na parede junto à vitrine voltada para o exterior da galeria. Próximas da rua, essas “existências mínimas” –  citando David Lapoujade – reúnem uma infinidade de fragmentos que poderiam estar soltos no mundo, mas que aqui, reunidos, provocam diferentes formas de apreensão: a contemplação de longe dá a compreensão do todo, mas a obra exige a aproximação do espectador para um contato mais íntimo.

Só bem de perto é possível perceber a complexidade dos pequenos objetos,  ora compostos de muitas camadas e fragmentos difíceis de decifrar, ora bem simples e desvendados, oferecendo-se sem segredos ao olhar. O título desse trabalho tem inspiração no filósofo da ciência Gaston Bachelard. Leonardo Lattavo embarca assim no devaneio poético desse pensador, que acreditava que por meio de um estado de consciência imaginante é possível criar mundos e descobrir novas subjetividades.

Na parede oposta, a mesma proposta de grid, mas com objetos um pouco maiores, tendo por base a madeira e mais uma vez trabalhados pelo artista com a intervenção de outros elementos. O interessante nesses grids é observar o rigor da disposição das peças na parede em contraste com a estudada anarquia da mistura e sobreposição dos materiais.

Fora das paredes, no centro da galeria, há objetos expostos em pedestais de diferentes alturas. São cubos e retângulos vazados, que têm suas hastes esgarçadas, rompidas ou cobertas de plumagem. A fragilidade de suas estruturas contrasta com a solidez dos blocos de madeira. Esse conjunto central atua como uma espécie de passagem e união entre os lados opostos da galeria, contribuindo para a sensação de continuidade entre as obras e dando unidade à mostra como um todo.

A exposição está em cartaz até o dia 28 de novembro na Galeria de Arte Maria de Lourdes Mendes de Almeida, na Universidade Cândido Mendes, com curadoria de Denise Araripe e mentoria de Lourdes Luz. Após essa data, as obras podem ser vistas na Lattoog.

Entomologia das quase-coisas

Leonardo Lattavo
Curadoria: Denise Araripe
Mentoria: Lourdes Luz

Até 28 de novembro de 2025
Galeria de Arte Maria de Lourdes Mendes de Almeida
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema – Rio de Janeiro
De segunda a sexta das 14h às 19h
Sábado das 14h às 18h

A partir de 2 de dezembro
Lattoog
Rua dos Oitis, 42 – Gávea – Rio de Janeiro
De segunda a sexta, das 10h às 19h. Sábados, das 10h às 14h

Classificação livre
Entrada gratuita

https://lattoog.com