Niranjanirakhar (1977)

O papel do Nepal na pintura de Antonio Dias

Por Valesca Veiga

Em 1977, Antonio Dias viajou ao Nepal em busca de um tipo de papel artesanal específico para imprimir a obra-álbum Trama. Sem encontrar exatamente o material imaginado, decidiu conhecer in loco um campo manufatureiro próximo à fronteira com o Tibete. A procura do papel ideal se transformou em uma residência artística colaborativa com produtores de grupos étnicos originários. A partir dessa experiência comunitária, que durou cinco meses, o artista passou a desenvolver outra relação com a matéria da arte, deixando mais distantes as obras ascéticas da década de 1970 e abrindo espaço para um resgate poético do fazer, do gesto e do corpo na obra.

Uma parte expressiva dos trabalhos realizados com esses papéis entre 1977 e 1987 está atualmente em exposição na Galeria de Arte do Centro Cultural Unimed, em Belo Horizonte. Com curadoria de Ligia Canongia e assistência de Fabricio Guimarães, a mostra Antonio Dias – Nepal apresenta vinte obras e uma instalação, além de material documental e vídeo de entrevista*.

Nas experimentações nos campos do Nepal, Dias introduziu aprendizados que havia adquirido anteriormente com os tibetanos, como o uso de corantes naturais na polpa do papel para atingir o efeito cromático desejado, e um modo de fabricação em camadas, que valorizava a espessura e a robustez da massa matérica, sem necessidade de cola. Por meio desses processos técnicos, desconhecidos dos artesãos até então, abria novas possibilidades investigativas ao grupo, quebrando resistências locais quanto à inovação nos meios tradicionais.

A materialidade imperfeita do papel artesanal unida a pigmentos como terra, barro, chás, curry e grafite, além de novas cores, produz densidade na fatura pictórica, como na instalação Niranjanirakhar (1977), com quatro grandes discos de papel feitos com folhas de chá, exibida na segunda sala do espaço expositivo, e na obra Chapati para Sete Dias (1977), em que pequenos discos de papel com sete diferentes pigmentos naturais e especiarias exibem tonalidades e texturas diversas.

Dias trouxe para os trabalhos as questões comuns da pintura, como camadas, transparências e ocultamentos. Contudo, o inusitado aqui é pensar que o papel em si deixa a posição de mero suporte, passando a ser mais uma camada e parte integrante da composição da imagem. Como em Sem Título (s.d.), com folha de bronze, e O Caminho do Meio (1978), onde as bordas irregulares parecem orientar e respaldar a assimetria da forma geométrica também no campo pictórico.

Após as experimentações do Nepal, diversos materiais se tornam mais presentes na produção do artista, e a pressão pela rigidez da forma milimétrica é aliviada em seus processos de criação. Mais tarde, Antonio Dias consideraria a vivência com os produtores nepaleses o momento auge da relação arte e sociedade em sua obra, questão ética que lhe era cara e base ideal de seu trabalho.

Antonio Dias – Nepal

Curadoria: Ligia Canongia
Até 07 de dezembro de 2025
Galeria de Arte do Centro Cultural Unimed – BH Minas
Rua da Bahia, 2.244 – Lourdes – Belo Horizonte
De terça a sábado, das 10h às 20h. Domingos e feriados, das 11h às 19h
Entrada gratuita
https://minastenisclube.com.br/cultura/galerias

*Um catálogo-livro de 80 páginas será lançado em breve, contendo as imagens da mostra e textos críticos da curadora, de Hélio Oiticica, e dos pesquisadores Ileana Pradilla Ceron e Gustavo Motta.