Luiz Braga: Arquipélago imaginário, em exibição no Instituto Moreira Salles de São Paulo, celebra os 50 anos da obra desse fotógrafo paraense que retrata, de forma singular, a identidade cultural da Amazônia urbano-periférica e ribeirinha. A mostra panorâmica apresenta um conjunto de 258 imagens, entre elas 190 inéditas, desde o início de carreira até a produção mais recente de 2024. Organizada por nove núcleos curatoriais, não cronológicos e permeáveis entre si, a exposição propõe um mergulho nas várias camadas de significado de práticas e processos do artista, que transcendem as particularidades técnicas do preto e branco, do uso da cor e da visão noturna.
A curadoria de Bitu Cassundé, com assistência de Maria Luiza Meneses, partiu da pesquisa imersiva por um conjunto de 15 mil imagens, previamente selecionadas pelo artista, cujo acervo é constituído por mais de 500 mil fotografias desde a década de 1970 até 2024. Apesar de o fotógrafo ser mais reconhecido pelos trabalhos em cores, o recorte prioriza a produção monocromática analógica que, no entendimento da curadoria, revela o substrato da obra. Muitos dos interesses estéticos e sociais que consolidam sua trajetória já estavam presentes nas 152 composições em preto e branco escolhidas, algumas delas nunca antes ampliadas por Braga.
Entre as produções monocromáticas e coloridas apresentadas, está o núcleo Nightvision – Mapa do Éden, com trabalhos oriundos de um processo experimental realizado na transição da câmera analógica para a digital. Nesse período, o artista passa a investigar as novas possibilidades técnicas da fotografia noturna, inicialmente em contextos de baixa iluminação, seguindo para o uso à luz do dia. O resultado é um conjunto de imagens que remetem a um ambiente fantástico, com tons prata-esverdeados que ampliaram a sua pesquisa de cor, como em Casa de farinha (2019) e Netuno II (2020).
Outro destaque da exposição é o eixo O retrato e O antirretrato, no qual os trabalhos estão dispostos em duas paredes no formato sanfona, alternando imagens de pessoas posicionadas de frente e de costas ou lado. Nessa sala, o retrato revela diferentes leituras do formato tradicional, onde o ambiente e o entorno também podem ser protagonistas, como em Esperando o barco (1986). Já o antirretrato subverte a fotografia clássica, dando ênfase a detalhes, à contraluz, às silhuetas, às inversões formais e à falta de foco num único personagem ou cena, como em Duas irmãs com tijolo na romaria (1995).
A última sala da exposição apresenta a produção mais recente de Braga na Ilha do Marajó, lugar de investigação e presença do fotógrafo nos últimos 20 anos. Único conjunto de trabalhos totalmente colorido e o maior da mostra, O Marajó sintetiza as particularidades apresentadas em todos os outros núcleos ressaltando a forma, a luz local e as cores do arquipélago. As tonalidades vibrantes do território foram reproduzidas pela expografia nas paredes coloridas dos dois andares da mostra, com destaque para pequenas janelas abertas entre as salas que mimetizam o olhar do fotógrafo pelas cenas intimistas retratadas.
Por todos os cantos, a exposição enfatiza a intimidade, o registro cotidiano e o gesto de “espiar” como metodologias poéticas de Luiz Braga, baseadas na proximidade com o outro, na escuta e na oralidade. Práticas que permitem ao artista criar conexões com pessoas, territórios, saberes populares e modos de viver das comunidades retratadas. O processo de “se permitir estar, e não apenas passar” pelos lugares, visitando-os várias vezes e em momentos diferentes de sua trajetória, transforma o tempo da obra em um conceito circular e não linear, calcado na ida, no retorno e na convivência.
O ato de espiar é da esfera da cultura popular e está relacionado ao ver com atenção, ao olhar com cuidado, generosidade e afeto. Braga encontra no gesto um fundamento de sua prática, sendo uma maneira de acessar a dimensão do periférico que está à margem da visão dominante. Nos registros captados no interior de casas e comércios, na convivência nos espaços comuns, no cotidiano ribeirinho, nas tradições coletivas e nas manifestações de fé, o artista constrói um imaginário sobre a região bem longe de modismos e estereótipos.
Luiz Braga – Arquipélago imaginário
Curadoria: Bitu Cassundé e Maria Luiza Meneses
Até 07 de setembro de 2025
IMS Paulista
Avenida Paulista, 2424 – São Paulo
Terça a domingo e feriados (exceto segundas), das 10h às 20h
Entrada gratuita
https://ims.com.br/













