Até o dia 23 de outubro, a Pinakotheke Cultural, no Rio de Janeiro, apresenta a exposição Lygia Clark (1920 – 1988) 100 Anos, em comemoração ao centenário de nascimento da artista. Com uma boa seleção de obras, que representa todas as fases de Clark, a mostra dá ao público, de forma didática, um panorama de seu percurso, das primeiras telas e desenhos aos Objetos Relacionais. A exposição seguirá para São Paulo, com exibição entre 15 de novembro e 15 de dezembro.
Com curadoria de Max Perlingeiro e consultoria de Luciano Figueiredo e Lula Wanderley, a mostra reúne aproximadamente 100 obras, divididas em 17 ordens conceituais: Escadas (1947), Légeriana (1951), Kleemania (1952), Quebra da Moldura (1954), Linha Orgânica (1954), Arte/Arquitetura (1955), Superfície Modulada (1955-1956), Planos em Superfície Modulada Série A (1957), Planos em Superfície Modulada Série B (1958), Espaço Modulado (1958), Unidade (1958), Contra Relevo (1959), Casulo (1959), Bichos (1960 – 1964), Obra Mole (1964), Trepante (1965) e Objetos Relacionais (1968 – 1973), além do filme Memória do Corpo (1984), com direção de Mário Carneiro, e do ensaio fotográfico feito por Alécio de Andrade, em 1969, no Hôtel d’Aumont, em Paris, onde Lygia Clark criou a performance Arquiteturas Biológicas II.
Mas qual a importância e pertinência de uma exposição de Lygia Clark hoje? Certamente as questões estéticas e formais que a artista propunha nos anos 1950 e 1960 estão superadas, mas isso em nada diminui a importância da mostra, já que toda a exploração plástica que Lygia realizou resultou em uma obra que entrou como legado para a história da arte moderna nacional como um de seus marcos fundadores. Além disso, a beleza e o impacto causado por peças como os Bichos, carro-chefe de seus trabalhos – ainda mais quando reunidas em grande quantidade –, é atemporal. Em qualquer exposição da artista são eles que dominam a cena. Em sua tese Obra em construção: a recepção do neoconcretismo e a invenção da arte contemporânea no Brasil, Flávio Moura chamou-os, com precisão, de “troféus do neoconcretismo”. A presença de Clark como mulher no ambiente artístico da época, predominantemente masculino, além da importância e influência que exercia entre seus pares, indica seu vanguardismo não só artístico mas também social. Apesar de ser mulher e mais velha do que a maioria dos artistas envolvidos no movimento neoconcreto, Lygia recebeu da classe artística todo o reconhecimento pelas pesquisas empreendidas, tornando-se, ao lado de Hélio Oiticica, o principal nome do neoconcretismo.
A opção por uma disposição cronológica das peças facilita a visualização do caráter evolutivo e transformador das obras, bem como a coerência estética e conceitual que Lygia manteve ao longo dos anos. Assim, a exposição pode ser percorrida como uma viagem através do tempo e da trajetória dessa artista.
O público é recebido na entrada da casa por um Trepante que ocupa todo o hall. Na primeira sala, estão expostos trabalhos da fase inicial de Clark. A série Escadas, fruto dos estudos com Burle Marx, representada por dois desenhos em carvão sobre papel (1951) e um em guache sobre papel (1950), demonstra as primeiras reflexões sobre o espaço, as escadas como “espaços de passagem, ambivalência entre subir e descer, um devir formado por um contínuo ir e vir”, como diz Paulo Herkenhoff em texto que ilustra as paredes da galeria. Nessa sala, estão também cinco óleos sobre tela da série Légerianas, referência óbvia ao artista francês Fernand Léger, professor de Clark durante seus anos de estudo em Paris, entre 1950 e 1952; e Kleemania, quatro telas a óleo e um guache sobre papel. Duas obras inéditas da artista também dividem esse espaço: uma das Escadas e o retrato de sua cunhada, Berta Clark, pastel sobre cartão, de 1943.
O salão central abriga as obras mais icônicas. Do importante Descoberta da Linha Orgânica – em que Lygia, explorando a fresta entre a tela e a moldura, começa a tratar o vazio como espaço e presença – às Superfícies Moduladas, passando pelos Contra Relevos e chegando, finalmente, aos Casulos, momento decisivo em que o plano avança para o espaço e, em um “estágio de radical transformação”, dá vida aos Bichos. Localizados em uma mesa central com diferentes níveis, os Bichos, feitos para habitar o mundo e as mãos do espectador, não podem ser tocados, como costuma acontecer em todas as exposições, tanto no Brasil quanto no exterior (onde normalmente são disponibilizadas cópias). A proibição ao manuseio parece sem sentido, uma vez que os Bichos não são objetos frágeis; ao contrário, são peças robustas, com encaixes sólidos, que quando manuseadas não se entregam passivas ao toque do espectador: o Bicho reage, provoca, espeta. Porém, a tendência já consolidada de sacralização de obras nascidas para a vida mundana coloca o trabalho em um altar.
Ainda no salão central, em uma vitrine, estão expostas variedades como uma Maquete para Interior (1955), duas Estruturas com Caixas de Fósforo (1964), réplicas dos Bichos, catálogos de exposições no MAM do Rio de Janeiro. Está ali também o Livro-Obra – que foi adaptado aos novos tempos, sendo transformado em aplicativo para iPad pelo Itaú Cultural – e ainda um exemplar do conto Meu doce rio, escrito em 1975, em Paris. Esse texto pleno de simbologia, no qual a artista carrega na acepção escatológica, evoca toda a cosmogonia, o interesse pela origem do universo e das coisas, presente de forma marcante na obra de Lygia Clark: da arquitetura e geometria dos Casulos à ideia orgânica de nascimento dos Bichos e à exploração do corpo com os Objetos Relacionais.
“O mundo era um grande bicho não percebido pelo homem. Deixava construir sobre o seu corpo pequenas arquiteturas, cidades, deixava navegar no seu mijo que eram rios, tragava tudo ao esboçar um bocejo ou um pequeno gesto. Com a abertura das pernas inundava cidades, destruía pontes que o homem reconstruía sem a percepção dessa totalidade mundo-bicho que incorpora tudo no seu ventre. A nostalgia do homem de ser coberto, unificado no grande corpo. Ele tem vários sexos e copula consigo próprio.” (Lygia Clark, 1975)
Na terceira sala, estão expostos os Objetos Relacionais: Rede de elástico, Estruturas vivas: diálogos, Almofada leve-pesada, O eu e o tu, Diálogo de mãos, Óculos, Respire comigo, Camisa de força, Luvas sensoriais, Ping-pong e Caminhando, este último considerado um divisor de águas na carreira de Clark e que consiste em uma fita de Moebios que deve ser cortada longitudinalmente pelo espectador. Como agente da ação, este contribui para a concretização da obra, faz com que a fita fique cada vez mais estreita, chegando a um ponto de finura em que já não é possível cortá-la.
Na sala dos Objetos Relacionais, ainda há um vídeo que exibe o ensaio fotográfico de Aécio de Andrade, feito em 1966, em Paris, e, na varanda, o filme Memória do corpo, de Mário Carneiro, com depoimentos de Lula Wanderley e Paulo Sérgio Duarte. Este último, inclusive, aparece no filme vivenciando a terapia com os Objetos Relacionais.
As comemorações pelos 100 anos de Lygia Clark foram prejudicadas pela pandemia que assolou o mundo em 2020 e até hoje impõe limites aos eventos públicos. Outro grande nome da cultura nacional, Clarice Lispector, também teve as comemorações de seu centenário eclipsadas pela pandemia. Duas mulheres que escreveram seus nomes de maneira indelével na história da cultura brasileira e que recebem agora, com atraso, mas sem perderem a importância, as merecidas homenagens.
LYGIA CLARK (1920 – 1988) 100 ANOS
Curadoria Max Perlingeiro
Pinakotheke Cultural
Rua São Clemente, 300 – Botafogo – Rio de Janeiro / RJ
De segunda a sexta, das 10h às 19h
Sábados, das 10h às 18h
Protocolo anticovid: visitação por agendamento pelo e-mail agendamento@pinakotheke.com.br ou WhatsApp (21) 97629-9683
Até 23 de outubro de 2021
Classificação livre
Entrada gratuita
Pinakotheke São Paulo
Rua Ministro Nelson Hungria, 200 – Morumbi – São Paulo / SP
De segunda a sexta, das 10h às 19h
Sábados, das 10h às 18h
Protocolo anticovid: visitação por agendamento pelo e-mail: agendamento@pinakotheke.com.br
De 15 de novembro a 15 de dezembro de 2021
Classificação livre
Entrada gratuita















