Ambiguidades, ambivalências, duplicidades, dualidades, multiplicidades: olho e espírito, matéria e memória, palavras e coisas, forma difícil e dificuldade de forma. Esse método-esquema teórico, filosófico, científico, espiritual, desenvolvido para tentar se aproximar das manifestações vitais da existência, se ampara num caimento ritmado próximo à complexidade da realidade. Abunda nos campos do conhecimento, em quase todas as vertentes. No trabalho de Lucia Laguna, é processo e efeito que apareceram na prática de suas atividades permanentes. É na suavidade de sua constância que consegue adequar as amplitudes multiformes da vivência na retidão de um caminho.
A última série de obras da artista, em exposição na Carpintaria, é a fração momentânea atual de seu percurso, recepcionada pela experiência, preparadora para alguma continuidade. Com seu caminhar, Laguna nos revela como a história da arte é um processo infinito. O convívio com as ambivalências e multiplicidades não acontece no espaço tempo desgarrado de um vácuo teórico, mas se assemelha a um malabarismo com 500 bolinhas ao mesmo tempo, sendo jogadas ao ar no percurso sem fim da vida. Se hace camino al andar: uma síntese.
DA MEDIAÇÃO À ADIÇÃO
Laguna é uma criadora de códigos, uma codificadora. Esse engenho potencializado em sua trajetória sempre exige, mais do que cálculo, uma maestria sensível. A professora de português, que viria a se tornar pintora, teve uma fábrica de brinquedos nesse meio tempo. Ao invés de adquirir mercadorias de plástico para sua filha, Laguna e seu marido construíam brinquedos, combinando partes de objetos que haviam sido desmembradas de seus corpos originais, partejando simpáticos inventos. Eram tão cativantes os achados que uma colega fez uma encomenda muito volumosa, precipitando a inauguração da fábrica. Mais tarde, o empreendimento foi vendido a dois assistentes e continuou a funcionar. Um desses antigos colaboradores ainda monta os chassis da artista até hoje.
A partir dessa fabricação de conhecimento, Laguna se apropriou dos dilemas da tradição da pintura. Muita energia se gastou com purismos e ortodoxias para esgarçar definições pesadas sobre a pintura, que permitissem a incorporação de gestos contemporâneos alinhados às transformações infraestruturais e sensíveis. É preciso retomar essas disputas para acessar a inventividade da obra da artista.
Reinhart Koselleck oferece um dualismo que auxilia a compreensão das superações paradigmáticas desses impasses entre posicionamentos radicais de artistas e críticos. Por meio das categorias formais “experiência” e “expectativa”, o reconhecimento das possibilidades de deslocamentos disponíveis a artistas, a fim de operarem em padrões da linguagem da arte, se tornam palpáveis. O “espaço de experiência”, que informa as bordas das ações na história, se dilata na medida em que o “horizonte de expectativas” é alterado na visão de mundo dos agentes. O reflexo da aspereza dos movimentos artísticos do passado chega à contemporaneidade quase que despido de qualquer valor. É assim, talvez, que todos os ataques dos concretistas ao modernismo de 1922, e vice-versa, não mostrem mais nenhum sentido para a arte brasileira atual, mas tenham sido fundamentais para sua especialização.
E o trabalho de Laguna contém a gravidade dessas peleias em sua solução livre e serena. O mundo que cria é povoado por elementos nos quais ela está imersa: seu jardim, seu bairro, sua casa, seu ateliê, sua cidade. Sabemos que as pinturas retratam a paisagem do Morro da Mangueira que ela vê de seu ateliê, assim como as vias expressas da Linha Amarela e da Linha Vermelha. Porém, não conseguimos identificar os símbolos dessas paisagens marcantes da cidade. Se ela codifica esses pontos, por que então não os reconhecemos? Nos termos de Koselleck, o “espaço de experiência” da artista, o corpo atravessando esses lugares e o olhar decodificando essas marcas já são embebidos por outras substâncias que atuam em seu processo técnico. É por isso que vemos longas retas que atravessam e dirigem territórios pictóricos espessos. A tensão entre figuração e abstração é dissipada: primeiro, quando seu corpo irrompe por dentro da densidade do ar; depois, quando seu registro técnico é dotado de um processo liberto de constrangimentos.
E Laguna corrobora essa práxis em seu discurso. O lance decisivo ensejado na concepção de sua estética foi ter assumido mais uma vez o compromisso de orientar. Ou, com a aptidão freiriana, mediar. O trabalho da artista não seria o mesmo sem a colaboração dos assistentes. O expediente consiste em transferir a autoridade ao aluno para que este aprenda ao produzir reflexão. Na troca, a mestra também aprende, tornando o assistente par, artista. E as noções categóricas de figuração e abstração vão ganhando mais camadas quando um integrante da equipe aplica matéria em um canto da tela, mais tarde outro desenha em outra parte e a memória de Laguna amarra a composição. A sua é uma pintura de adição.
Com isso, Laguna renova mais categorias da arte. Se há séculos a figura do mestre ensinando pupilos em sua oficina foi o arranjo onde se desdobraram as inovações nos processos da arte, agora ela realiza o jardim-oficina-casa, onde pratica o ofício de pintora-professora-mediadora-mestra, junto a seus alunos-artistas-assistentes-pares. E assim, revela e aprimora a verdade sobre a autoria como sentimento-conceito, e sedimenta resoluções litigiosas sobre compartilhamentos no sistema da arte: “Cada um entra com a sua parte, coloca lá a sua marca. E eu organizo tudo isso, com a liberdade de apagar, de substituir, de interferir de um modo geral, mas fazendo parte desse grupo todo. Eu não sou aquela pintora que está lá só para assinar, que fez aquele negócio todo e assina embaixo, não! Eu nunca quis ser assim, sabe? Sempre pensei que podia ter mais. Pode falar, Cláudio.”*
A espessura da aura da obra é inflada por seu sopro, que também anima outras vivências. Só o sentimento-conceito dá sentido primordial à obra. A pintura de Laguna não mostra apenas a aplicação de matéria com uma intenção visual. Na temporalidade da criação de cada trabalho, o elemento imaterial previsível, proveniente das forças sociais que se manifestam nas relações entre ela, assistentes e matéria, também faz parte da ação artística. O compartilhamento é conceito autoral, concebido previamente, analisado em perspectiva histórica e aplicado como processo técnico dos modos poéticos da arte contemporânea.
A IMAGEM DA CIDADE DE LUCIA LAGUNA
O fruto desses esforços é a construção da imagem de cidade de Laguna, esta que para ela tem como eixo central sua própria casa. Mas para que construir a imagem para si se essa cidade já é uma imagem? Pintar para Laguna é vivificar. Se cada pessoa elabora estratégias para suprir suas necessidades cognitivas elementares para existir, a pintura para ela enraíza seu pertencimento. Chegando ao Rio de Janeiro, ainda como professora, depois de ter morado em Minas Gerais, escolheu uma escola em Padre Miguel para dar aula; entre as opções disponíveis, era o único nome que conseguia reconhecer devido à escola de samba do bairro. Ao ir se familiarizando com a cidade, um dia desceu do ônibus quando passava por um outro bairro da Zona Norte e foi à procura de uma nova casa. Ao passar a viver ali, a casa e o entorno se associaram a uma tática de pertencimento, que resultou na gênese de sua pintura. Quando deu esse passeio, em 1978, ela ainda não tinha ideia de que veria a comunidade da Mangueira da janela de sua nova casa.
O antropólogo Kevin Lynch desenvolveu pesquisa sobre como uma cidade é percebida e rabiscada como imagem: “Cada indivíduo tem uma imagem própria e única que, de certa forma, raramente ou mesmo nunca é divulgada, mas que, contudo, se aproxima da imagem pública e que, em meios ambientes diferentes, se torna mais ou menos determinante, mais ou menos aceite.” A imagem da cidade de Laguna é própria, divulgada, determinante e aceita no universo da arte. Quais seriam as propriedades que se aproximam de uma imagem pública do Rio? São as propriedades do subúrbio carioca, trabalhadas numa relação de presença e ausência em relação ao todo dos elementos da cidade. Como ela levanta essa imagem? Com uma fita crepe.
Laguna olha para a cidade e já vê nela o que é pictórico, formatado pela predisposição contemporânea. Lynch observa que a imagem de uma cidade é “a sobreposição das imagens de muitos indivíduos”. Isso sugere que os símbolos da cidade atuam como vetores sociais influenciadores, que perpassam os indivíduos e são organizados por eles, dentro dos limites de suas individualidades. Cada imagem se choca com a outra, num acordo coletivo parcial, mas suficiente para a partilha do espaço.
O autor recorre a artifícios da linguagem para tentar apreender o acidental nas formas da cidade. O termo “vias” designa “canais ao longo dos quais o observador se move, usual, ocasional ou potencialmente.” Laguna já percorreu a Linha Amarela algumas poucas vezes, quando foi à Praia da Barra. Parece que desbravar o extenso território que atravessa a cidade, ligando a Zona Norte a Zone Oeste, na velocidade do carro, tem menos peso para ela do que sua capacidade de se situar de dentro de seu “bairro”. De sua janela, não vê a Linha Amarela com seus olhos, mas sabe que a via se estica por trás da cadeia de montanhas próxima de sua visão. Nas pinturas sobre a Linha Amarela e a Linha Vermelha, o que ganha mais destaque são os largos territórios pictóricos, por meio da finura da fita crepe que faz as vezes do gesto veloz que esquadrinha o espaço, assim como a engenharia urbana das vias.
Lynch identifica que os “bairros” possuem uma “extensão bidimensional”, sendo “sempre passíveis de identificação do lado interior e, também, do exterior.” Ir à Praia da Barra pela Linha Amarela foi e ainda pode ser uma novidade para cariocas mais antigos. Parece que quando Laguna passa pela via, sua bússola funciona melhor se seu bairro for sua referência espacial, na partida para seu exterior.
SE FAZ CAMINHO ENQUANTO SE CAMINHA
Laguna afirma que a fita crepe “é uma personagem fundamental”. A série exposta na galeria Carpintaria traz muitas novidades. A pintura de adição faz a figura externar mais personalidade, a abstração ficar mais acurada e as forças sociais, mais fortes. O toque decisivo é a adoção da colagem como modalidade. Chega a ser avassalador como o uso que faz da colagem carrega o arranque originário do dadaísmo de Hannah Hoch e Kurt Schwitters. A aparição de uma dimensão plástica, por meio do arranjo entre imagens já disponíveis, supera a condição de estratagema e ganha a qualidade de grandeza cosmológica. A intimidade compartilhada entre a crepe, os assistentes e Laguna fez aprimorar o elo com a energia imaterial.
A empolgação da artista com uma nova descoberta é emocionante. Nessa nova série, ela descobriu uma possibilidade com a fita crepe: “Fazer uma pintura chapada em tinta branca, e pintar por cima. E, na hora de pintar, eu deixo uma borda bem fininha, como se fosse esses sticks que você retira e cola. Eles sempre deixam uma borda.” Esse é o empréstimo que fez da colagem. As bordas brancas fininhas estruturam uma espacialidade outra dentro de sua obra. Quebraduras acentuadas entre as formas que vão se encaixando, revolvem a extensão da pintura por suas capilaridades, articulando as análises visuais cotidianas que faz no seu jardim e de sua janela, que convergem com olhar que persegue. Há algo potente no ajuntamento de animais, plantas, arquiteturas e geometrias enquanto signos, com certeza.
E seu caminho não para de ser refeito. Essa sofisticação atualizada teve início quando pintava os brinquedos para sua filha com tinta guache. A série atual foi toda produzida com tinta acrílica. O domínio da crepe se encontra com a utilidade da tinta acrílica de permitir um corte mais seco nas bordas, diferente do óleo que deixaria a pintura abaloada, desperdiçando a aparência de colagem. O controle do estilete retoca os contornos e faz a crepe se apresentar sinuosa. É assim que, talvez pela primeira vez em seu trabalho, apareçam círculos perfeitos. A pintura é o quociente do tangível e do intangível. Domínios alterados, transmutados na totalidade das imagens
*O artista Cláudio Tobinaga, assistente de Lucia Laguna, participou da entrevista junto da pintora.
Referências
DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 2010.
LYNCH, Kevin. A Imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Rio de Janeiro: PUC-Rio, Contraponto, 2012.
Se hace camino al andar
Lucia Laguna
Carpintaria – RJ
Rua Jardim Botânico, 971 – Rio de Janeiro
Terça a sexta, de 12h às 19h
Sábado, de 12h às 18h
Visita presencial até 15 de maio
Visita virtual até 31 de maio
Entrada gratuita
Classificação livre
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