Por Leo Ayres*
A dança começa com um rodopio na escada de Reidy para, prontamente, ser interrompida pela monitora que avisa que alguns trabalhos foram retirados da exposição. Com a pandemia, as obras interativas não foram mostradas, para evitar o contágio pelo vírus que se espalha por todo o planeta. Mas, se Hélio Oiticica ficou justamente conhecido por transformar o espectador em participador que completa a obra de arte, será que a exposição Hélio Oiticica: A dança na minha experiência continua fazendo jus ao artista e, principalmente, ao seu título?
No texto escrito em 1965, Oiticica fala justamente da quebra do formalismo, de trazer a cor para o espaço com o auxílio do corpo dos participantes. Os tecidos coloridos em formas de faixas, bandeiras e capas são agitados no espaço. No movimento, as formas se diluem, se contraem e se expandem. Os amarelos, azuis e vermelhos se mesclam, a todo instante, com as cores do ambiente, sem a possibilidade de se determinar o início e o fim.
É Carnaval. Não houve samba, nem suor. Só lágrimas. A cidade do Rio de Janeiro, que tem uma das festas mais conhecidas do planeta nessa época do ano, ficou silenciosa. As fantasias ficaram restritas às máscaras que cobrem narizes e bocas. Onde sempre se escutava batuques e metais logo pela manhã, e gritos de bêbados varando a madrugada, só se escutou os ônibus levando os trabalhadores ao seu destino. Alguns não trabalharam, outros sim. Talvez negando o momento atual e guardando uma euforia latente para quando o carnaval realmente chegar.
Poderia ser pior. Imagine a frustração de saber que a festa existe, mas que você não pode participar. A bateria toca, mas você não pode sambar. É uma experiência, mas diferente da vivida e proposta pelo artista. Os Metaesquemas funcionam como partituras de uma música, composta e ensaiada. As cores se espalham pelo espaço nas esculturas, como os carros alegóricos estacionados prestes a entrar na avenida. O corpo é convidado a se atirar do mezanino e mergulhar no espaço, porém falta coragem. Aquele momento de êxtase, de estarmos juntos na rua, correndo atrás dos blocos, beijando desconhecidos, improvisando fantasias e coreografias, não aconteceu.
O artista está morto. Certamente ele teria criado um modo inusitado de criar este relacionamento obedecendo os dois metros de distanciamento físico necessário no momento atual. Ou criar um momento de desobediência? Ainda estamos vivos. O que fazer? Como recriar a experiência dessa explosão de felicidade? As obras que foram retiradas fizeram falta? Sim, mas justamente essa ausência que nos move e nos faz pensar em saídas para os problemas. Vivemos da adversidade.
É esse sentimento de um perigo iminente que desafia nossas crenças e nos abre corações e mentes. Como não há mal (ou bem) que dure para sempre, aguardemos. Pois há um vírus muito mais potente e contagioso que virá em seguida: a alegria.
* Leo Ayres é artista visual e gestor do espaço independente ALINALICE.
Helio Oiticica: a dança na minha experiência
Curadoria de Adriano Pedrosa e Tomás Toledo
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Av. Infante Dom Henrique, 85
Aterro do Flamengo – Rio de Janeiro
Quinta e sexta, das 13h às 18h
Sábado e domingo, das 10h às 18h
Até 07 de março de 2021
Contribuição sugerida, com opção de acesso gratuito
Adultos: R$ 20
Idosos, crianças e estudantes: R$ 10
Ingressos on-line: www.mam.rio/ingressos
Correalização com o Museu de Arte de São Paulo – MASP













