The clopen door - frame video

Caminho sem volta

Por Leo Ayres*

“Como o milho duro, que vira pipoca macia, só mudamos para melhor quando passamos pelo fogo: as provações da vida.”

Rubem Alves

Na década de 1960, durante a Guerra do Vietnã, o Ocidente se chocou com a imagem de monges budistas que atearam fogo ao próprio corpo como forma de protesto. Incapazes de impedir a guerra, só lhes restou uma última e potente mensagem, numa expressão máxima de desapego ao próprio corpo.

Desde os primórdios, o fogo foi um dos principais elementos para a evolução humana. Revolucionou a alimentação, permitiu a sobrevivência em áreas gélidas, possibilitou a vida noturna e a metalurgia. Na mitologia grega, foi roubado por Prometeu e devolvido à humanidade, causando a fúria de Zeus. Até os dias de hoje, carrega um caráter meio mágico e hipnótico. Quem já fez uma fogueira ao ar livre com os amigos numa noite de inverno, sabe do que estou falando. Não só pelas chamas incessantemente tremulantes, mas pelo som do crepitar da lenha que nos induz a um estado de sublimação.

O fogo transforma. Tudo o que passou por um incêndio é reduzido a cinzas e deixa de existir como matéria física. É inegável que o ano de 2020 está sendo uma prova de fogo para toda a humanidade e, com certeza, sairemos modificados. Talvez, quem se recuse a se transformar fique aprisionado em uma casca dura, como os cadáveres fossilizados de Pompéia. Sendo assim, os museus devem, a todo momento, repensar seus papéis, acompanhar os tempos e tomar novos rumos quando necessário.

Noite de abertura, exposição de Thiago Rocha Pitta, em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio, é uma porta que queima. Do lado de dentro do museu, a porta aparece em um vídeo, em uma área externa onde a fogueira é acesa. Ela vai se desmanchando, deixando em seu lugar seu desenho feito de brasas. No pilotis da instituição, a mesma peça está ereta, sobre uma pilha de lenha, como que prestes a ser reduzida a cinzas.

Uma porta em si não é entrada, nem saída, ou pode ser as duas ao mesmo tempo. O trabalho está simultaneamente dentro e fora de um museu fechado. Em tempos sombrios, o prédio modernista se torna um pequeno farol sinalizando uma nova direção. Para onde vamos? Ninguém sabe. A única certeza é de que é um caminho sem volta.

* Leo Ayres é artista visual e gestor do espaço independente ALINALICE.


Noite de abertura

Thiago Rocha Pitta
Curadoria de Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM Rio
Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo – Rio de Janeiro
Quinta a sexta, das 13h às 18h
Sábado e domingo, das 10h às 18h
Até 15 de novembro de 2020
Agendamento prévio pelo site https://mamrio.byinti.com/#/ticket/gratuita
Entrada gratuita com contribuição sugerida: R$ 20,00 (inteira) – R$ 10,00 (meia entrada)
Classificação Livre
https://www.mam.rio/