MoMa expo 2020/2021

DONALD JUDD: O QUE SE VÊ É O QUE SE VÊ

Por Ana Beatriz Britto

No final da década de 1960, Donald Judd já tinha transformado o contexto histórico da arte. Foi um dos principais artistas que teorizaram a nova abordagem plástica anticomposicional, publicando artigos que justificavam as novas propostas artísticas. Objetos Específicos é de sua autoria. O modo inovador com que Judd lidava com a questão do volume na escultura exerceu enorme influência no minimalismo. Seu nome está inserido em um modelo de produção cultural de um mundo de estruturas econômicas, oriundas de um capitalismo industrial avançado, onde práticas artísticas emergem de uma cultura que rejeita pressões de apreço ao subjetivismo e à universalização, e sacraliza a experiência secular como possibilidade de legitimar a arte. É um artista que privilegia a ação e pertence a uma minoria intelectual polêmica que se organiza em oposição a valores como o lucro, o bem-estar e o poder do sistema de uma sociedade de consumo. Para Judd, a função social da arte é a própria arte.

A escultura de Donald Judd remete ao pragmatismo e ao modo de vida americano: o homem constrói o mundo através da experiência. A posição do pragmatismo identifica-se com uma sociedade que se autodetermina, com um homem que se realiza no mundo com autonomia e não tem referência fora dele. Por não ser ligado ao peso da tradição, adota a postura de enfrentar positivamente a superfície do mundo. Valoriza a ação de construir em oposição ao pensamento europeu que priorizava a reflexão. Em termos espaciais, o racionalismo do Ocidente privilegiava a composição enquanto o minimalismo subscreve a ideia de independência radical entre os elementos. A ordenação por partes é preterida em prol de um novo sentido do todo, regrado, não por relações convencionais de hierarquia, mas por ordens seriais que recusavam acentos ilusionistas e metafóricos. O mundo não é mais relacional, e sim simultâneo.

A valorização do mundo empírico é condição desta nova “estética”. O maior desafio do minimalismo foi a reestruturação do sujeito do modelo cartesiano europeu para um modelo fenomenológico de experiência corporal, que deslocou o significado de dentro do objeto de arte para as contingências do contexto. Segundo Judd, cada um dos sólidos, individualmente, perderia seu sentido, assim a noção de unidade da obra só seria estabelecida a partir da sua leitura como um todo. O artista acreditou ter libertado a arte do problema do ilusionismo e do espaço representado, tão caros à tradição europeia. E, assim, o espaço real onde suas obras tridimensionais se inseriam era mais poderoso que o espaço representado.

Tais esculturas unitárias e independentes ou unidades idênticas repetidas eram ordenadas de modo progressivo, permutacional ou simétrico. Privilegiaram formas elementares e a utilização dos materiais industriais de maneira tão neutra quanto possível, com precisão técnica e exaltação da materialidade e da cor. As obras de Judd oferecem um variado repertório – do opaco ao translúcido – mas o módulo serve como princípio ordenador de todas as partes, sempre iguais, e depende dos fatores previsíveis de repetição e continuidade.

A redução formal, a produção de objetos em série, a fabricação industrial, o uso de materiais industriais despersonalizam o trabalho do artista. A afinidade com o mundo industrial evidencia-se pelo uso dos materiais e pelo modo de ordenação serial: “uma coisa após a outra” (one thing after another). Seu trabalho rompe com a dualidade sujeito-objeto e estabelece um autoenvolvimento topológico com o espaço do mundo. Desprovida de pedestal, a escultura passa a dividir o espaço real com o observador, que está mais consciente das suas relações com a obra à medida que a apreensão acontece a partir do contexto. O corpo se converte numa “ferramenta de conhecimento”, tornando imperativo o repensar do objeto escultórico, e uma nova condição de leitura substitui a simultaneidade da visão pela apreensão imediata da escultura minimalista. “O que você vê é o que você vê” (what you see is what you see) é considerada a tautologia minimalista.

A filosofia minimalista

Dois modelos de significação se impõem em relação à experiência estética nesse momento do minimalismo: um deles ligado ao cerne da filosofia analítica do último Ludwig Wittgenstein que proclamava que “o significado é o uso” e  indicava que o significado das palavras não possui uma definição absoluta, prevista em um mundo platônico de ideias. Ao contrário, o significado das palavras só ganharia sentido no espaço público. A preocupação de Wittgenstein assevera que é necessário transferir a atenção do conceito de intencionalidade para o conceito de uso. Este seria o ponto decisivo. A linguagem pode se dar à compreensão, não na pureza da consciência de um sujeito idealizado, pois o homem é considerado enquanto pessoa ativamente envolvida na história, mas agindo sobre ele e sendo por ele afetada. A importância do mundo repousa no fato de que constitui a realidade referencial na qual o homem está inserido. O que não existe? A linguagem privada. Uma obra que é pura presença física, independente de leituras e interpretações apresenta-se como proposição visual que deixa para trás qualquer ilusionismo. Tal aparência desencarnada e antiexpressiva das esculturas de Judd relaciona-se à filosofia analítica do pensamento de Ludwig Wittgenstein, em Investigações Filosóficas.   

O segundo modelo baseia-se na fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty e produziu uma postura de significado na qual o corpo é a pré-condição da experiência do objeto, na verdade, o primeiro mundo. A percepção tradicional baseava-se unicamente no órgão da visão e no seu processamento mental mas, ao longo do século XX, a relevância do corpo e dos sentidos foi explorada no plano filosófico com evidentes repercussões no nível da arte. A primeira geração de artistas minimalistas, como Donald Judd, encontrou uma análise teórica para a relação mútua entre objeto e espectador – participante ativo da obra – a partir da sua apreensão sensorial. O interesse pela fenomenologia estava ligado especificamente ao pressuposto dessa experiência pré-objetiva que sublinhasse toda percepção, mesmo em obras ligadas à abstração, sem conteúdo determinado.

Objetos específicos

Donald Judd declara que, apesar da diversidade do trabalho dos artistas minimalistas, existem pontos em comum, como o fato de o trabalho ser um objeto e mais um objeto específico. Designou as novas esculturas como objetos específicos e o argumento decisivo para essa redefinição foi que não eram substitutas da realidade mas, elas próprias, realidade. Judd afirma que os novos trabalhos não constituem um movimento ou escola, pois inexistem regras para definir um movimento. Os artistas minimalistas empenhavam-se em que a obra de arte se apresentasse como una, uma simples gestalt, efetiva como uma experiência que se tem imediatamente e de uma só vez.  

Judd ainda escreveu: “a ordem não é racionalista ou subjacente, mas simplesmente ordem, assim como continuidade, uma coisa após a outra” (the order is not rationalistic and underlying, but is simply order, like that of continuity, one thing after another).1 Tal conceito remete aos dias que passam sem direção ou significado ou às coisas intocadas pelo pensamento, que simplesmente se apresentam ao observador. Um novo modo de ordenação, um caminho para descobrir o mundo moderno, tal como ele se apresenta: aberto a dúvidas e possibilidades. Essa nova estética fica patente na disposição sequencial das esculturas de parede de Judd, que não sugere qualquer significado. O próprio termo minimalismo assume um sentido disciplinador de contenção e economia visual, implicando uma simplificação da escultura a seu suporte estrutural em si, considerada como objeto.

A obra de Donald Judd evidencia a importância da presença física das suas esculturas e enfatiza o caráter atual, real e positivo da arte. Tal posição relaciona-se ao empirismo: o mundo como proposição. Sua escultura não leva à contemplação, e sim à percepção. O espectador experimenta a obra através dos sentidos. O que é a obra de Judd? O encontro com o trabalho baseado na experiência real. A sua fisicalidade é condição que visa a ampliação do campo de experiências perceptivas do observador. O envolvimento deste é aberto, o artista não pressupõe uma apreensão gestáltica da obra e, sim uma experiência perceptiva e corpórea.

Por fim, Judd prioriza a realidade, a materialidade, as propriedades físicas de materiais não nobres, industriais, que não remetem a significados. Também não utiliza materiais que possam remeter a outros, como a fórmica que parece se referir à madeira. Por fim, a escultura não remete a nada a não ser a si mesma e à integridade de sua presença no mundo.

A arte está no objeto desprovido de pedestal e nas circunstâncias de apresentação deste, seja no chão ou na parede. A obra de Donald Judd não se trata de uma unidade fechada em si mesma, só opera no espaço em que aparece. Essa relação que estabelece com o contexto faz com que a obra não “possa” mudar de lugar, sem que as condições de relação com o espectador sejam problematizadas, pois a obra é situacional – só existe dentro de uma situação. Quanto à ordenação, cumpre considerar que a ordem não é estrutural, uma vez que estrutura é basicamente um sistema de relações. A ordem é literal. Quanto à cor, o trabalho escultórico de Judd demonstra que ela se incorpora à superfície material das obras. E a cor é saturada: laranja, rosa, azul, tons fortes e não tradicionais. E a luz também é parte intrínseca do trabalho. O que dizer da redução formal? A ética de Judd não admite a decoração, pois esta acontece sobre a superfície, maculando-a. Sua escultura acontece na superfície onde a relação é intrínseca com o material. Trata-se do “aqui e agora” e não de algo transcendente.  

Como não reconhecer a ética da externalidade de seu trabalho, da aparência sem ornamentos? A escultura apresenta-se como aquilo que é. O que Judd faz? Experimenta, aprende a olhar as coisas como elas são. A arte consiste em “pegar as coisas e fazer”. O experimentalismo consiste em desafiar convenções, implantar o novo. Sua geometria é saxônica, de ordem pragmática, não é a geometria ideal dos sólidos platônicos. Podemos afirmar que o artista americano privilegia o “excessivo, o paradoxal e a projeção em grande escala”. Cumpre também considerar que sua escultura é de ordem pública para o espectador e não da circulação do consumo privado. “Extrair o máximo do mínimo” é revelador de uma postura não ligada a uma sociedade de consumo. Donald Judd é um artista contemporâneo que não nega a tradição puritana da América do Norte, com sua postura do não desperdício e atitude de sempre recomeçar. Sua obra se confunde com a ética da vida.

Um trabalho para ser olhado

Não se pode pensar em as obras de Donald Judd isoladas, como também não podem ser experimentadas em museus. O artista quis proteger sua obra do modelo “cenográfico” de grande parte das exposições atuais e cria sua própria fundação. A Fundação Chinati, em Marfa, é um espaço neutro que permite a visibilidade adequada das obras, condição essencial que possibilita e, ao mesmo tempo, exige do espectador um tempo de fruição determinado pela escala e disposição das obras.  Por fim, afastada dos centros urbanos, quase uma empresa familiar, a Fundação preserva a instalação permanente do artista e respeita seu modo de apresentação. Podemos afirmar que a consideração à topologia das obras é um passo adiante, pois assume o envolvimento entre arte e vida. A experiência da arte acontece no local e a obra de Donald Judd funda um lugar. Como o artista Richard Serra define:

“O trabalho de Judd é para ser olhado, antes de mais nada. A experiência está baseada na percepção, sempre física, cinestésica. (…) A obra tem um senso comum visual: uma coisa depois da outra, uma progressão, uma pilha, um todo dividido em tantas partes específicas igualmente interessantes. Seus objetos eram executados com perfeição milimétrica e os aspectos de sua construção eram revelados nos mínimos detalhes.(…) Mas isso não é tudo; ao menos não é aí que coloco o significado da escultura de Judd. Admiro especialmente as esculturas abertas, grandes, de metal, concreto ou compensado. Elas expressam um espaço público, uma expansão, não contida por uma solução fechada. Judd foi um dos primeiros a lidar com o espaço interior contido e o espaço circundante ao mesmo tempo, ao enfatizar a continuidade de dentro para fora. Penso em Judd como um americano essencial, americano tal como definido por Charles Olson, nas primeiras linhas de Call me Ishmael: Eu considero o ESPAÇO como o fato central para o homem nascido na América, da caverna Folson até hoje. Eu escrevo com letras grandes porque tudo é grande aqui. Grande e sem piedade.

[1] SERRA, Richard. Writings, Interviews, p.191. Chicago/ Londres: The University of Chicago Press, 1994.


Referências Bibliográficas        

JUDD, Donald. Objetos específicos. In: FERREIRA, Gloria e COTRIN, Cecília, Escritos de artistas. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

SERRA, Richard. Writings, Interviews. Chicago/ Londres: The University of Chicago Press, 1994.