Surrounded Islands, Biscayne Bay, Greater Miami, Florida, 1980-83 @ Christo (1935–2020)

Christo e Jeanne-Claude: uma retrospectiva

Por Ana Beatriz Britto*

Nosso trabalho é sobre liberdade. A liberdade é inimiga da posse
Christo1

Um espectador que percorrer as salas da exposição Christo e Jeanne-Claude2, no Centre Georges Pompidou, em Paris, irá se defrontar com a maior retrospectiva já realizada sobre a obra desses artistas. A mostra destaca o período de 1975 a 1985, com atenção ao período parisiense (1958 a 1964), e os trabalhos monumentais em paisagens e espaços públicos, a partir do final da década de 1960. Christo nasceu na Bulgária e faleceu de forma inesperada em sua casa, em Nova York, em 31 de maio desse ano. Ao lado de Jeanne-Claude, esposa, artista e parceira, o casal ficou mundialmente conhecido por instalações que primam pela qualidade de seus projetos de engenharia, arquitetura e urbanismo. Sem dúvida, encontram-se entre os artistas contemporâneos que pretendiam divorciar a obra de arte de sua inclusão na indústria cultural como mera commodity. Um olhar atencioso à produção dos Christo se faz necessário para a compreensão de experimentações determinantes à criação de novos espaços de sentido para a arte. 

Os 300 trabalhos que serão exibidos no museu francês incluem desenhos, filmes, colagens, maquetes, fotografias, documentos e estudos de engenharia que financiaram seus ambiciosos projetos e, cujos registros, cabe destacar, estão presentes em importantes coleções particulares e públicas. A natureza temporária das instalações revela a rejeição à ideia de permanência, tão cara à história da arte. Sem dúvida, essa temporalidade cria um sentimento de fragilidade, pois pressupõe a ideia de perda ou desaparecimento, porque o trabalho tem um tempo determinado em um local específico. Fica o registro e não a obra em si, vivenciada apenas por aqueles que puderam se confrontar com seu embate no mundo. Trata-se de arte como experiência e não contemplação. Alguns críticos apresentam o argumento que costuma negar a eficácia dessa atitude, considerando que o mercado acaba por absorver esses produtos, valorizando-os da mesma forma que obras tradicionais. Seria, entretanto, ingênuo supor que os artistas não participassem ativamente desse processo para a produção de seus trabalhos.  

A INTEGRAÇÃO OBRA-CIDADE

As obras site-specific foram produzidas, a partir do final dos anos 1950, constituindo-se uma tendência da contemporaneidade ou pós-modernidade. Pode-se dizer que a arte contemporânea é aquela que permite sua contaminação pelo mundo, enquanto a arte moderna busca afirmar sua autonomia e auto-referência. É um traço das site-specific basear-se no confronto com o espaço real, tendo em conta suas qualidades físicas, o que demonstra a “impossibilidade” de separação entre a obra e seu local de instalação. Outras preocupações entraram no foco do artista: o observador, o local, a escala dos trabalhos, sua relação com o lugar e o contexto. 

Christo e Jeanne-Claude pressupõem que a obra é um meio de reflexão em relação ao lugar; não deve ser entendida como produto de consumo e, sim, integrada à vida da cidade. Desse modo, os trabalhos interferem diretamente na percepção do espaço público e a ideia é de que sua presença ofereça ao espectador a possibilidade de mudanças de pensamento e atitude. Entretanto, essa postura pode provocar conflitos resultantes do poder coercitivo de interesses dominantes que interferem na arte experimental contemporânea. Os artistas enfrentaram muita relutância e dificuldades para a aprovação de projetos, tais como o wrapping da Pont Neuf, em Paris, e o Reichstag, em Berlim, além de muitos outros.

Recusando a “aura” da obra de arte, ligada à ideia de permanência e unicidade, discutida por Walter Benjamin, na década de 1930, a produção dos Christo insiste em radicar nos embates incontornáveis de um estar-no-mundo que, como adverte Merleau-Ponty, consiste muito menos em exercer uma visão compreensiva sobre o todo, do que em transitar entre fatores de conjunção e descontinuidade. Experiência perceptiva que torna necessária a revisão de nossos conceitos habituais acerca da percepção e exigem reposicionamento em termos de inteligência topológica. O que Christo e Jeanne-Claude fazem? Potencializam a percepção do real. 

A cronologia das experiências artísticas mais conhecidas de Christo começa nos anos 1960, quando, ao deixar o Leste europeu, se estabelece em Viena, depois em Paris, e, por sugestão de Leo Castelli, em Nova Iorque – novo eixo da arte no pós-guerra. Em Paris, o envolvimento de Christo com o Nouveau Realisme é pontual e breve, não chegando a se filiar ao movimento fundado por Pierre Restany, em 1960. Foi em busca de redefinição da arte e a situação progressista do movimento que o aproximou de Arman, César, Yves Klein, Daniel Spoerri, Jean Tinguely, entre outros. Mas, a questão central de Christo era analisar a questão da “embalagem” em uma sociedade de consumo e negar a fetichização do objeto de arte.  

Nesse período, Christo privilegia o tecido laqueado ou amassado, corda, fios para embalar pequenos objetos variados: latas, garrafas, cadeiras, carros, objetos do cotidiano, sem um interesse particular. As Wrapped Cans e Bottles demonstram sua posição em considerar que qualquer objeto poderia se tornar obra de arte. Antes de se estabelecer em Nova Iorque, em 1964, com Jeanne-Claude, o artista instaura, ainda, uma nova pesquisa em torno de vitrines que reconstitui, ocultando o interior após intervenção com papel ou tecido. Trata-se da série Store Fronts, Show Windows, confimando sua preferência por questões da arquitetura, que será desenvolvida, de forma constitutiva, nos projetos urbanos posteriores. Ao mesmo tempo, o casal produz Air Packages – enormes estruturas infladas com ar e sem suporte estrutural. Tais trabalhos demonstram a defesa de uma produção que seja intervenção crítica e que possa abrir novos espaços de investigação, desprezando a razão de ser da arte como mercadoria.  

É necessário mencionar a reação do artista à construção do Muro de Berlim, em 1961. Com a cumplicidade de Jeanne-Claude, prepara o protesto Wall of Oil BarrelsIron Curtain, uma barreira para obstruir a passagem na Rue Visconti, em Paris. O projeto não é aprovado, mas na noite de 27 de junho de 1962, por oito horas, o casal bloqueia a rua com barris, sem permissão das autoridades. A barricada obstruiu o tráfego e os artistas tiveram que responder diante da policia, mas o crucial havia sido realizado – uma obra pública que demonstra a contestação e o debate político na cidade.

PINTURA, ESCULTURA, ARQUITETURA E URBANISMO

A trajetória dos Christo, no final dos anos 1960 e 1970, torna seus projetos mais complexos e ambiciosos. As instalações monumentais se alternam em centros urbanos e paisagens isoladas. A expansão da escala de suas obras exige estudos colaborativos e logísticos, que envolvem engenheiros, arquitetos e urbanistas, para investigar uso de materiais, processos de produção e execução em sites determinados. A posição carismática do casal ainda determina um traço marcante em suas produções: um trabalho democrático que envolve equipe de artistas, estudantes e trabalhadores, além de especialistas.           

Uma conceituação pertinente acerca das instalações de Christo e Jeanne-Claude sustenta que elementos da pintura, escultura, arquitetura, urbanismo e land art estejam presentes em suas obras. Afinal, teríamos à frente verdadeiros “acontecimentos”. No campo pictórico, Surrounded Islands (1980-1983), na Florida, utiliza o rosa luminoso de tecido com brilho, para envolver as ilhas em contraste com o verde da vegetação e o azul do céu. Trata-se da questão pictórica que transforma o panorama das ilhas e ainda nos remete ao grande mestre da cor no século XX, Henri Matisse.  

Elementos pictóricos e urbanísticos também se fazem presentes no celebrado projeto Umbrellas que acontece no Japão e nos EUA, transformando-os em uma obra de arte simultânea. Medidas de planejamento urbano, assim como permissão de autoridades relativas às estruturas, são necessárias à realização do trabalho. As Umbrellas nos EUA são instaladas em terra não cultivada e se dispersam em várias direções; a cor amarela é escolhida pelo contraste com as colinas de relva marrom. Enquanto, no Japão, são instaladas muito próximas, respeitando a geometria dos campos de arroz, tendo o azul exuberante em contraste com o solo verde cultivado. A questão da cor é observada com apoio teórico e integra o projeto da instalação.

Em Valley Curtain (1970-1972), em Rifle, Colorado, que consumiu 28 meses de trabalho e permaneceu no vale por apenas um dia, literalmente levada por um vendaval, a questão pictórica da cor laranja se destaca e fica patente seu contraste com o verde do vale. A obra também discute o conceito da temporalidade em oposição a ideia de permanência. Na instalação The Gates (2005), em Nova Iorque, a cor laranja também se faz presente em 7,503 portões que dominam o Central Park. Revela-se interessante que os artistas tenham especificado a cor como saffron, o que demonstra a atenção ao estudo da questão pictórica. 

Do ponto de vista da land art, o primeiro triunfo relacionado à arte produzida em locais afastados foi Wrapped Coast Line, na Austrália, projeto que permanece dez semanas em Littlle Bay, mas sua vasta escala deixou experiências incomparáveis que contribuíram para a importância da arte contemporânea neste país. É importante assinalar que um dos trabalhos mais espetaculares dos Christo foi Running Fence, ao norte de São Francisco. Os artistas instalaram a obra em frente ao Pacífico, através de um percurso por fazendas e vilarejos. O impacto estético, forma e extensão de Running Fence remete à Muralha da China e apesar da remoção ter começado 10 dias após o término, não impediu que se identificasse a obra no seu site de instalação pela força da mobilização que produziu.

O interesse pela questão escultórica também se coloca em trabalhos como a The Pont Neuf Wrapped, em Paris, The Wrapped Roman Wall, em Roma, Wrapped Monumento to Vittorio Emanuele (1970) e Wrapped Monumento to Leonardo da Vinci (1970), em Milão, ao considerar o apreço dos artistas pelas dobras, drapeados, próprios das esculturas clássicas e renascentistas. A questão acerca da importância da arquitetura é crucial à execução de quase todas as obras dos Christo, como o monumental projeto Wrapped Reichstag, em Berlim, e The Pont Neuf Wrapped que devem ser considerados verdadeiros trabalhos de arquitetura.

Nas obras públicas, nota-se que todo lugar integra um contexto que carrega significados ideológicos e históricos. O projeto da Pont-Neuf serve como exemplo magistral: a oposição foi enorme e os Christo tentaram por mais de dez anos a aprovação do projeto por conta da importância histórica da ponte, que foi construída por Henrique III e finalizada no reinado de Henrique IV – a ponte mais significativa de Paris. Quanto ao projeto do Reichstag, os artistas enfrentaram muitas dificuldades por sua importância ideológica e histórica. Símbolo da  história alemã, construído em 1894, sofreu um incêndio em 1933 e foi quase totalmente destruído no final da Segunda Guerra. Restaurado nos anos 1960, foi palco da reunificação da Alemanha e sede do Parlamento alemão. O wrapping respeitou a  tradição clássica e foi formada por drapeados, dobras, elementos de afrescos, madeira, bronze e o uso de tecido transmitiu a ideia de impermanência. A interação foi bem sucedida e sua presença cativou a visita de pessoas de várias partes do mundo. A obra permanece na memória coletiva alemã. 

Entre os trabalhos mais recentes, destaca-se The Floating Piers (2016), site-specifc no Lago Isea, na Itália. O tecido amarelo cria uma ligação entre  Sulzano, Monte Isola e a ilha de São Paulo, atraindo cerca de 1.2 milhões de visitantes. Com efeito, a obra cumpriu sua função. Em uma sociedade capitalista pós-industrial e um mundo de produção em massa invadido por imagens e informação, a força poética do trabalho dos Christo instaura uma vivência física maior que a experiência meramente visual. Suas instalações alcançam o mundo real, aguçam nossa visão e nos tornam mais conscientes e observadores, diante do mundo e da vida. De modo claro, suas obras têm a ver com sua adesão ao mundo, articulações que desafiam nossa visão habitual, para se converter em hiperatenção a aspectos do real.  

The London Matsaba (2016-2018), em Londres, foi inaugurada no Hyde Park com 7.506 barris empilhados horizontalmente, flutuando no lago Serpentine. Os barris foram especificamente fabricados e pintados em vermelho, branco, azul e lilás. A escultura fica em uma plataforma flutuante feita de cubos de polietileno de alta densidade, sustentados por âncoras pesadas, com uma estrutura de andaimes de aço que confere rigidez à escultura. E cumpre lembrar que Christo iria embalar o Arco do Triunfo, em 2021, com um projeto que remete a 1961.

Até certo ponto, os Christo não deixam de vincular-se ao projeto moderno que acreditava na capacidade de a arte transformar o real, porém sua obra encontra-se radicada nas práticas contemporâneas. É produto do período de experimentações da arte do final dos anos 1960, procurar instaurar um conceito de escultura ou instalação contemporânea. Trata-se de um trabalho que força a ligação entre obra, espaço e espectador. Os artistas demonstram notável capacidade de dar continuidade a uma produção que persegue o lugar da arte como o da experiência perceptiva e política no mundo. Como declara o crítico Lorenzo Mammì, “mesmo que a arte tenha deixado de ser o lugar onde a vida se organiza, ela ainda é o lugar onde as coisas aparecem. Sempre há espaço para operações estéticas, mesmo num mundo cujo significado já parece dado. E talvez elas sejam hoje, por isso mesmo, ainda mais necessárias3.   

*Ana Beatriz Britto é professora e organizadora de grupos de estudo de História e Filosofia da Arte. Mestre em História Social da Cultura, na linha de pesquisa de História da Arte e Arquitetura, e especialista em Arte e Filosofia, ambos pela PUC-Rio, desenvolveu pesquisa sobre Richard Serra e o Minimalismo, com dissertação intitulada “Richard Serra: escultura” (2018).                                                                                    .


1. BAAL-TESHUVA, Jacob. Christo e Jeanne-Claude. Londres: Taschen, 2011.
2. A exposição teve sua estreia adiada por causa da pandemia do coronavírus. O Centre Georges Pompidou reabriu em 1 de julho e a exibição será prorrogada até 19 de outubro de 2020.
3. MAMMÌ, Lorenzo. O que resta: arte e crítica de arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. P.117


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAAL-TESHUVA, Jacob. Christo e Jeanne-Claude. Londres: Taschen, 2011.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Obras Escolhidas: Vol 1. Rio de Janeiro: Editora Brasiliense, 2012
MAMMÌ, Lorenzo. O que resta: arte e crítica de arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 
MERLEAU-PONTY, Maurice. A fenomenologia da percepção. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011