Durante 21 dias, Fernanda Gomes promoveu uma ação que resultou na concepção, construção e montagem de uma grande instalação, transformando as galerias temporárias da Pinacoteca de São Paulo em um vultuoso ateliê. O projeto expográfico minucioso, desenvolvido pela artista ao longo de dois anos, apresenta um conjunto de trabalhos constituído por fragmentos que se desdobram por sete salas expositivas. A exibição da mostra propõe uma experiência imersiva e única, sem possibilidade de se repetir com a mesma configuração compositiva.
Com produções desde a década de 1980 até as atuais, concebidas in loco, Gomes reúne um retrospecto de sua trajetória com cerca de cinquenta obras dispostas com total ausência de significação. Peças pintadas de branco em ambientes da mesma cor ou deixadas na tonalidade natural dos elementos, feitas com materiais comuns – madeira, gesso e vidro – e sem referências de legenda – título, data ou técnica – acabam por criar conexões entre si na indefinição do todo e também na relação do conjunto com o espaço.
Mesmo sem a viabilidade de relacionar o caminho poético da artista com a ordem cronológica das obras, é possível perceber um pensamento forjado no rigor da forma, na geometria, na precariedade dos materiais empregados e nas marcas de uso ou imperfeições dos objetos. A sensação de vazio e ausência permeia a atmosfera das salas repletas de peças comuns, recolhidas do meio doméstico de Gomes ou de depósitos de descartes e caçambas de lixo. Há também trabalhos com materiais nobres, como ouro e prata, e um mobiliário encomendado especialmente para a exposição, mas o que prevalece é uma atmosfera de itens simples e corriqueiros, sobras e detritos, considerados inúteis para a funcionalidade da vida cotidiana. Esses artigos ordinários, que não pertencem à esfera das mercadorias, carregam memórias e cicatrizes do tempo.
Os tons de branco são superfícies luminosas que se expandem quando sobrepostas às paredes brancas, mas que, ao mesmo tempo, não se fundem com o ambiente, possibilitando ao espectador diferenciar o que é trabalho e o que é entorno. Na geometria construtiva, a dicotomia de cheio e vazio das formas, juntamente com o predomínio do branco, promove a ambiência de lacuna e silêncio que permeia toda a obra.
Fernanda Gomes
Curadoria de José Augusto Ribeiro
Pinacoteca de São Paulo
Edifício Pina Luz
Praça da Luz, 2 – São Paulo – 1º andar
De quarta a segunda, das 10h às 17h30 – com permanência até as 18h
Até 24 de fevereiro de 2020
Entrada: R$ 10,00 – Meia entrada: R$ 5,00 (para estudantes com carteirinha). Isenção para menores de 10 e maiores de 60 anos
Gratuidade a todos aos sábados
Classificação livre









