A CONVICÇÃO CONCRETA DE JOÃO JOSÉ COSTA

Por Paulo Couto

Analisar o sentido do movimento concretista no Brasil exige administrar abordagens concorrentes para que sua interpretação se aproxime, o máximo possível, do que foi a dinâmica dos agentes envolvidos em sua elaboração. Ao mesmo tempo que se encaixava nas ambições da sociedade, que amadurecia, enquanto organização civil, estruturava-se industrialmente e construía uma esfera pública, a Arte Concreta não prescindia desses elementos para se realizar. Tratar a inscrição do Concretismo na história da arte brasileira, em retrospecto, faculta a revelação de um processo social, elaborado de forma contingente, assim como a percepção de como as obras de arte do período apreenderam essas transformações em suas propriedades.

Abordar o movimento concretista como um processo social implica perceber o seu caráter relacional, no sentido em que artistas, críticos e demais agentes o produziram a partir de interações. Por meio do trânsito entre esses contatos, a própria autoria era construída. E era por alianças e fricções que as identidades se formavam e as ideias passavam para a posteridade, ou não. O Concretismo brasileiro foi esse enredamento de agentes que apostaram em um jogo tenso, tendo os fundamentos da arte como matéria de disputa. E a abstração, como conteúdo mais amplo, introduziu ainda mais discussões no interior do debate.

Para investigar qualquer movimento artístico ou intelectual, o esforço de análise passa sempre pelo risco da contextualização. Risco que leva à percepção de que essas tendências só ganham sentido quando emaranhadas em um sistema social, que por sua vez se exprime concretamente em interações, instituições, discursos e valores compartilhados e disputados. No caso do Concretismo, uma série de dilemas se apresenta, pois se trata de um movimento com ambição universalizante, que se expandiu globalmente para além dos seus núcleos europeus de formação, ganhando, em muitos contextos em que se manifestou, timbres próprios e originais. No processo de aclimatação da Arte Concreta ao contexto cultural brasileiro, aparecem interpretações peculiares, em todas as direções.

João José Costa foi um dos membros do Grupo Frente, tendo sua adesão conduzida por Ivan Serpa, figura em torno da qual o grupo se organizava. Serpa foi professor do artista e a quem seu desenvolvimento no repertório da Arte Concreta muito se deve, assim como aconteceu com praticamente todos os outros membros do grupo. A formação profissional em Arquitetura agregou o rigor da prancheta de desenho aos gestos de João José e formou seu olhar singular sobre as formas do espaço. Desde o início das atividades públicas do Frente, seu trabalho se destacou como exemplar, em relação às definições do que deveria ser o Concretismo, pelo menos de acordo com a crítica carioca da época, que sempre o posicionava como membro fundamental para legitimação do movimento, ainda em fase seminal. A trajetória do artista, dentro do grupo e depois de sua dissolução, ajuda a esclarecer algumas questões históricas dessa tendência no Rio e de seus episódios mais cruciais.  

A obra de João José se mostra valiosa como um caso ímpar para maior compreensão da Arte Concreta, justamente pela maneira como investe nas formas geométricas de qualidades possíveis e reais. A empiria praticada na relação sensível com as formas do mundo é informada pelo olhar do arquiteto. O princípio concreto de que a pintura deve conter uma estrutura interna, alicerçada por linhas, planos, círculos e cor, funciona como um norte a ser seguido, mas não interfere na sua estratégia de produzir um novo olhar, uma espacialidade original, uma outra relação com os entes físicos. Sua interpretação compreende o ambiente como sendo imprevisível, inconstante, instável, variável, volúvel, e o que ele faz é recorrer aos artifícios geométricos, para revelar o sentido consequente dessa configuração em que as partes estão dispostas. O suporte extravasa suas limitações e a obra se acomoda por entre os espaços do exterior, organizando-o com sentido renovado. As formas repousam sobre o mundo, se encaixam por entre suas brechas, e este estende sua conformação para dentro das telas. As formulações, sempre em pequena escala, são teses que dão conta de desvelar aspectos sobre as entidades, em suas variadas proporções. 

Essas possibilidades de operações com a geometria, desenvolvidas por João José, devem ser pensadas a partir do rigor da ortodoxia da Arte Concreta. Uma revisão histórica sobre o Concretismo, levando em consideração a influência que o artista exerceu no sistema cultural do Rio, em relação a experiências de outros talentos brasileiros, revela que essas operações produziram uma tendência de arte abstrato-geométrica, cujo efeito ultrapassou as expectativas previstas pelos participantes mais radicais do movimento. Isso se explica pela intenção do compromisso coletivo ser praticada no limiar de fronteiras de transações e trocas, aproximando os membros na medida em que cada um formava seu repertório próprio, sua autoria, sua identidade.

Pensar na atuação de João José nesta conjuntura, não só pode nos levar a um entendimento mais complexo do que foi o Concretismo no Rio e no Brasil, como também do próprio amadurecimento do abstracionismo de forma mais abrangente. Isso implica em lidar com a delicada questão do quão imobilizadoras as categorias podem ser e o quanto o Projeto Construtivo, onde nasce e se desenvolve a própria abstração como um todo, foi alicerçado por definições que foram disputadas, sempre resultando em desdobramentos contínuos. João José parece ter se recusado a limitar sua obra a uma categoria e, mesmo não tendo deixado uma produção textual, seu trabalho carrega as evidências de um discurso contundente sobre a arte abstrata, desviando-se dos constrangimentos de seus limites originários.

Situando sua produção no contexto em que atuou, podemos acessar sua obra por dentro de suas especificidades, ou fazer o esforço de alinhar sua contribuição ao processo maior do Concretismo, tratando do dualismo entre a concreção e o lirismo. Ao mesmo tempo em que são evidentes as linhas desenhadas com precisão, que sugerem o apagamento da mão do artista, e formas geométricas com um corte igualmente definido, que afastam a subjetividade do trabalho (regras concretistas), a composição, o movimento e a estrutura instilam uma aproximação com elementos informais. A estruturação das obras indica, justamente, uma fundação sólida, mas com ação nos movimentos de arranjo das diagonais e verticais. A estrutura, ora é configurada em verticalidade, ora é o equilíbrio estendido das partes pelas laterais da composição. A cor define os formatos geométricos e vai determinar o corte esguio, criando o efeito de opacidade quando imersos na superfície ou na sua aparição mais pronunciada e nítida. As linhas apresentam a retidão necessária para sistematizar a composição com arrojo, até mesmo nas investidas mais líricas.   

Talvez, o conteúdo mais importante em João José seja a colagem. É preciso se dedicar com atenção a essa faceta poética. Tanto nas formas mais presentes, quanto nos menores detalhes, os trabalhos são compostos por pedaços de papel monocromático colados sobre superfícies pintadas a nanquim. Qual seria sua intenção ao empreender essa operação? Mais uma vez, é preciso apontar que seu posicionamento está presente nas propriedades da própria obra, e não em uma produção teórica e textual. Em todo caso, é possível rastrear elementos que elucidem esse gesto intrigante.

Existe uma relação fundamental entre o Cubismo e o Construtivismo. As decomposições de densidade e volume, orientadas para superfície da tela, muito praticadas nas colagens cubistas, vão nortear a planificação das formas, em todas as modalidades construtivas. Ainda assim, o que vemos no trabalho do artista não é uma dissolução de paisagem ou objetos, mas a produção renovada de possibilidades para o espaço. Os papéis monocromáticos colados são cor e forma, que fazem, às vezes, de massa pictórica. É possível uma associação também com a colagem dadaísta, sendo uma relação que pode ser vista como “mais próxima”. Dentro do Grupo Frente, o ideal da antiarte foi muito compartilhado pela via do dadaísmo – questão que já estava assentada no contexto de viés político e vanguardista. Em João José, esse é um elemento que agrega o experimentalismo empírico a seu trabalho. A colagem é incorporada no processo de pesquisa da feitura da obra, proporcionando uma abertura para o acaso, desviando da idealização. Isso se aproximaria do conceito central da colagem de inserir, na materialidade do trabalho, elementos do real.

Esse é um ponto revelador da dinâmica relacional do concretismo, enquanto processo social contingente. É possível ver como o artista compartilhou, mas também disputou valores com os outros membros do Concretismo, principalmente no Grupo Frente. Trata-se de uma questão crucial para o entendimento do movimento o porquê de João José e outros membros do Frente não terem se engajado no Neoconcretismo. Intuímos suas motivações através do que está contido nos discursos de seus repertórios plásticos, remontando o histórico de conflitos do Projeto Construtivo brasileiro.

Não é de se estranhar que as inovações neoconcretas parecessem inadequadas para um pintor de forte convicção concreta, com formação em Arquitetura – caso recorrente entre construtivistas. Quando o Neoconcretismo é fundado, João José decide seguir os rumos do ofício de arquiteto, que, para muitos, é a prática mais elevada do trabalho geométrico, ocupando-se cada vez menos com as artes visuais. Em todo caso, é perceptível como sua atuação no Frente se encontrava com as próprias ambições dos cariocas que levaram o propósito neoconcreto a cabo. O dilema de João José, criado com o advento do movimento, foi resolvido dentro de seus princípios e de uma produção posterior eficiente, o que evidencia o nexo de sua tomada de posição. 

A exposição Geometria Passageira, em cartaz no Paço Imperial, reúne desde seus primeiros trabalhos, no Grupo Frente, até sua produção mais recente, de 2013. É possível constatar que, após passar a se dedicar à Arquitetura, de maneira quase exclusiva, sua produção artística arrefeceu, mas não cessou por completo. A partir dos anos de 1960, até o fim de sua carreira, João José teve, aproximadamente, seis exposições individuais. Mas é interessante observar que o estudo de sua rede de influências mostra um contraste dessa estimativa com a grande circulação de sua obra. Seus trabalhos aparecem com uma alta incidência em exposições coletivas, compondo teses curatoriais que o aproximam de gerações posteriores, interagindo com artistas contemporâneos. Um fôlego que se sente em toda a sua produção, apresentando coerência e vigor até a última fase, o que a curadoria de Ronaldo Brito amarrou com perícia, evidenciando caminhos para investigações teóricas ampliadas.   

Referências Bibliográficas

BRITO, Ronaldo. Neoconcretismo – Vértice e ruptura do projeto construtivo brasileiro. Rio de Janeiro: Cosac e Naify, 1999.

COCCHIARALE, Fernando, GEIGER, Anna Bella. Abstracionismo geométrico e informal – A vanguarda brasileira nos anos cinquenta. Rio de Janeiro: Funarte, 1987.

TILLY, Charles. Identities, boundaries and social ties. Londres: Paradigm Publishers, 2005.

Geometria Passageira

João José Costa
Curadoria de Ronaldo Brito
Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro
De terça a sexta, das 12h às 19h
Sábados e domingos, das 12h às 18h
Até 16 de fevereiro de 2020
Entrada Gratuita
Classificação livre