A Pequena Galeria, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, exibe uma seleção de trabalhos da fotógrafa Maureen Bisilliat, até o dia 23 de fevereiro. Nascida na Inglaterra, em 1931, e naturalizada brasileira, a ex-estudante de pintura, que trocou os pincéis pela câmera fotográfica, tem obra pautada nos registros de paisagens e costumes nacionais, assim como no diálogo com consagrados escritores brasileiros: Adélia Prado, Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Jorge de Lima e Mário de Andrade. Todos autores que tiveram como mote o Brasil, em suas mais diversas representações e manifestações.
Os sertões, nordestino e mineiro, vistos como míticos pelo olhar estrangeiro da artista, foram material de trabalho e fonte de inspiração para seu projeto fotográfico-literário. Entre as obras destacadas pelos curadores – a própria Maureen Bisilliat e Miguel del Castillo – estão os livros A João Guimarães Rosa (1969/1974), com imagens do agreste de Minas, inspiradas em Grande sertão: veredas, que a fotógrafa teve o privilégio de mostrar ao escritor, em pessoa; Sertões: luz & trevas (1982), sobre Os sertões de Euclides da Cunha; O cão sem plumas (1984), onde ilustrou o poema homônimo de João Cabral de Melo Netto com imagens de homens e mulheres que viviam da pesca do caranguejo, na Paraíba; e Bahia amada/Amado ou O amor à liberdade & a liberdade no amor (1996), para o qual selecionou textos de 12 livros do amigo Jorge Amado.
Mas, além dos livros que representam o ponto central de seu trabalho, um vasto material de arquivo, com recortes de jornais, revistas e correspondências, fortalece a mostra. É nesses fragmentos de História que se encontram preciosidades. Uma página do jornal Folha de São Paulo, de abril de 1966, anuncia: “A fotografia entra para o museu de arte”. Apesar de o debate sobre fotografia como arte ser anterior, foi apenas nos anos 1950/60 que teve reconhecimento como meio de comunicação mais importante da era moderna e expressão artística formal. No Brasil, fotógrafos como Geraldo de Barros e o húngaro Thomas Farkas, contemporâneos de Bisilliat, trabalhando com fotomontagens e processos alternativos, deslocavam a ideia de fotografia como representação do real e abriam novos caminhos para a experimentação estética. Bisilliat, ainda que associada ao fotojornalismo, produziu uma obra com força poética e lirismo capazes de afastá-la de qualquer intenção meramente informativa. Talvez pelo desejo de expandir cada vez mais os limites da imagem, desde a década de 1980, a fotógrafa tem se dedicado ao trabalho com vídeo. Um de seus documentários mais importantes é Xingu Terra (1981), rodado na aldeia Mehinaku, no Alto Xingu, ao lado de Lúcio Kodato.
Interessada em mostrar, através de suas lentes, o lado pouco conhecido do interior e das minorias, Bisilliat foi convidada, em 1988, por Darcy Ribeiro, a viajar por vários países latino-americanos com o propósito de reunir uma coleção de arte popular para a Fundação Memorial da América Latina.
A obra completa de Maureen Bisilliat faz parte do acervo do Instituto Moreira Salles desde 2003 e conta com mais de 16 mil itens. A exposição em cartaz, atualmente no espaço carioca, é uma versão ampliada da mostra de 2018, apresentada no IMS Paulista.
Escrever com a imagem e ver com a palavra: fotografia e literatura na obra de Maureen Bisilliat
Curadoria Maureen Bisilliat e Miguel del Castillo
Instituto Moreira Salles – IMS Rio – Pequena Galeria
Rua Marquês de São Vicente, 476 – Gávea – Rio de Janeiro
De terça a domingo, das 11h às 20h
Até 23 de fevereiro
Entrada gratuita
Classificação livre








