Sem Título, 2019 – Crédito: Ateliê Carlos Vergara

Na vivência dos rastros, o futuro

Por Patricia Lattavo

Prospectiva: como adjetivo, o que faz ver adiante ou ao longe. Como substantivo feminino, estudo das causas técnicas, científicas, econômicas e sociais que aceleram a evolução do mundo moderno e a previsão das situações que poderiam derivar das suas influências conjugadas1.

Os significados da palavra dão indícios do objetivo do artista. Carlos VergaraProspectiva, em exibição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, até janeiro de 2020, apresenta o trabalho atual desse gaúcho, estabelecido no Rio de Janeiro desde os anos 1950, que fez parte dos movimentos de vanguarda que pavimentaram os caminhos da arte brasileira até a contemporaneidade.

Grandiosidade e imponência, são essas as primeiras impressões para quem adentra o Espaço Monumental, no segundo andar do museu.  O salão tem as paredes ocupadas por grandes monotipias (2019), resultado de um trabalho de empenho, cuja viabilização envolveu uma equipe numerosa para imprimir nas grandes telas brancas – ora com pó de carvão, ora com terra da escavação – os relevos e texturas das pedras do Cais do Valongo, sítio arqueológico, marco histórico e trágico da chegada de homens escravizados ao Brasil. O local, patrimônio da humanidade reconhecido pela Unesco, carrega a memória de um tempo não tão distante. Vergara impacta o público, transportando para dentro do museu as marcas dessa história. Institucionaliza a dor desses antepassados para que eles nos digam: “ainda estamos aqui”.

Vale a pena reproduzir a definição dada por Marc Pottier no texto Sudários, Carlos Vergara: De Saintes-Maries-de-la-Mer a Sainte Baume, sobre o que é a monotipia, técnica utilizada na maioria dos trabalhos desta mostra: 

“A monotipia aplicada à estampa, é uma técnica de impressão sem gravura através da qual se obtém uma prova única. Geralmente, consiste em pintar com tinta tipográfica, tinta a óleo ou guache, sobre suporte não poroso como vidro, metal ou plexiglas. Carlos Vergara, quanto a ele, baseou sua técnica no pó de carvão, que aplica nos relevos do solo. A pintura é em seguida prensada com o papel que acolhe a prova. Carlos Vergara exerce uma pressão com os dedos em determinados lugares e obtém diferentes tipos de preto […].

Com isso, temos uma ocorrência de mão dupla. Enquanto o relevo das pedras se oferece como molde, o gesto das mãos de Vergara, que pressionam mais ou menos as partes que desejam destacar, insere na paisagem a subjetividade do artista.

Essa mesma técnica é utilizada na série Sudários, mas ali, no lugar das grandes telas, são lenços brancos que o artista deposita sobre o solo coberto de pó de carvão. Trabalhos de grande carga poética, realizados entre os anos de 2003 e 2019, os Sudários são impressões de chãos pisados por Vergara, suas andanças em Salvador, Pantanal, São Miguel das Missões mas também na Índia, Capadócia, Cazaquistão e, já em 2019, em Saintes-Maries-de-la-Mer e Sainte Baume, na França. A forma como os sudários estão expostos proporciona uma imersão, cria para o visitante um labirinto de narrativas, em que os lenços, seus desenhos e os pequenos fragmentos locais colados em muitos deles, contam histórias de natureza, de espiritualidade, de pessoas e culturas. Nas paredes ao redor, o registro fotográfico da produção das monotipias. Pela atmosfera que cria, esse espaço de experiência relacional é um acerto do curador: o próprio Carlos Vergara.

No centro do salão principal fica a série Natureza Inventada (2011/2019). Um conjunto de esculturas recortadas que rodeiam uma mesa, ambos em aço corten, com cadeiras do designer Zanini de Zanine. Essa composição, envolta pelas grandes monotipias, produzem um resultado final cenográfico, no melhor estilo “Távola Redonda”. As esculturas parecem cavaleiros medievais guardando a sala da távola, que não é redonda mas em formato de folha e, assim, mantendo a proposta da original, não tem cabeceiras, representando a igualdade entre todos os membros. As esculturas poderiam ser, ainda, peças de um tabuleiro de xadrez ou, em uma associação mais direta e segundo a visão de Felipe Scovino no texto Natureza Inventada2, “imagens de caules” que se entrecruzam, uma floresta de aço. A proposta abre muitas possibilidades interpretativas.

Ainda nesse salão, Empilhamento (1967/2019), outro trabalho de grandes dimensões, reproduz perfis de seres humanos recortados em papelão corrugado, empilhados sobre caixas do mesmo material. Apesar de conversar claramente com os tons cromáticos e com as formas das outras obras expostas, esse trabalho perde força diante da presença densa e impositiva das peças em aço, posicionadas à sua frente, que, pela proposta expográfica, atraem e monopolizam o olhar do visitante. A passagem desse espaço grandioso para a sala ao lado, onde estão os sudários labirínticos, cria uma dinâmica de visita interessante para o público.

No terceiro andar e, desta vez, com curadoria de Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes, pode-se ver um pouco do trabalho de Carlos Vergara das décadas de 1960 e 1970. São obras do acervo do MAM e da coleção Gilberto Chateaubriand expostas em sala complementar. Nelas pulsam as estruturas narrativas e o novo tratamento da figura, característicos da Nova Figuração. Esse movimento, surgido a partir da icônica mostra Opinião 65, reuniu artistas brasileiros e estrangeiros em um gesto de reação à tendência abstrata que dominara a década anterior, e teve em Vergara um de seus expoentes, ao lado de Antônio Dias, Rubens Gerchmann e Roberto Magalhães. A Nova Figuração, além de expor as questões que mobilizavam o cenário cultural da época, marcava uma tomada de posição da classe artística diante do momento político do país.

Em 1967, ainda no intuito de promover uma reflexão sobre as vanguardas nacionais, Vergara organiza a exposição Nova Objetividade Brasileira, também no MAM do Rio. Essa noção de “nova objetividade” já vinha sendo trabalhada por Hélio Oiticica desde o evento Proposta 66, na FAAP, em São Paulo, onde a proposta era examinar a situação da arte no país. Recusando tendências neossurrealistas e fantásticas, a “nova objetividade” defendia a “utilização de meios capazes de reduzir à máxima objetividade o subjetivismo”. Essa defesa do objeto e do emprego de uma nova linguagem estão no texto A Declaração de Princípios Básicos da Nova Vanguarda, que acompanhou a exposição no museu carioca e foi assinado por Carlos Vergara, Hélio Oiticica, Mário Pedrosa, Rubens Gerchmann, Lygia Pape, Carlos Zilio, Glauco Rodrigues e Maurício Nogueira Lima. Uma das características da mostra foi a de reunir artistas de diferentes tendências pois, como pontuou Oiticica, a “nova objetividade” não pretendia constituir um grupo, mas ser a convergência de diversidades.

A partir dos anos 1970, a produção de Vergara começa a passar por maiores transformações, aproximando-se mais da fotografia, dos filmes Super-8 e das instalações. Nos anos 1980, retorna à pintura com a utilização de pigmentos naturais e minérios, iniciando seu caminho em direção aos trabalhos produzidos e expostos atualmente. No MAM, além de ver as obras, o público terá acesso a textos de críticos e curadores de várias gerações que, ao longo dos anos, vêm participando da trajetória desse artista. São eles: Paulo Sérgio Duarte, Luiz Camillo Osorio, Felipe Scovino, Keyna Eleison, Luisa Duarte, Marc Pottier e Maurício Barros de Castro.

Em Prospectiva, Carlos Vergara viaja pela História, olhando para frente. Revela, com a organicidade do carvão e da terra, os passos do homem em direção ao futuro e sugere que na vivência dos rastros estão as indicações de novos, e talvez, melhores caminhos.

1Definição disponível em https://dicionario.priberam.org/prospectiva

2 Texto publicado no folder da exposição Natureza Inventada, realizada na Galeria Referência e no CCBB-Brasília entre abril e junho de 2019.


Carlos Vergara – Prospectiva

Curadoria de Carlos Vergara
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM Rio
Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo – Rio de Janeiro
De terça a sexta, das 12h às 18h
Sábado e domingo, das 11h às 18h
Até 12 de janeiro de 2020
Entrada: R$ 14,00 (inteira) – R$ 7,00 (meia entrada)
Ingresso família: R$ 14,00 (domingos, até 5 pessoas)
Gratuidade para menores de 12 anos; Amigos do MAM Rio; funcionários das empresas mantenedoras, parceiras e apoiadoras; associados e colaboradores do MAM São Paulo; associados do MARCO
Gratuidade para todo o público às quartas-feiras
75% de desconto para Amigos da EAV e alunos EAV
Classificação Livre