Geralmente lembrada por seu pioneirismo na videoarte e na videoinstalação, Sonia Andrade mostra a força de seu trabalho em outros suportes na exposição O lugar a que se volta é sempre outro, na Galeria Athena, no Rio de Janeiro. São obras que tanto se relacionam com diversas percepções de tempo, quanto com diferentes momentos da trajetória da artista, cobrindo o período de 1972 até o momento atual.
Um total de 53 trabalhos estão distribuídos por três ambientes da galeria. Na sala Casa, são apresentados desenhos e guaches minimalistas que exibem os estudos pictóricos da artista em seus anos iniciais de carreira, além do vídeo A morte do horror (1981), sequências de fotos do corpo de Andrade em O braço da artista e As mãos da artista (ambas de 1982-2019) e a obra A caça – Ratoeiras (2019), estrategicamente posicionada no canto.
No segundo andar, a sala Varanda é quase toda ocupada pela série Sob os Céus (1979-1984), mosaicos feitos com fotografias tiradas na Europa, recortadas e remontadas em fragmentos que produzem novos arranjos com efeito final de pixels sobre tela. Ainda nessa sala, vídeos de 1974 (Sem título), de 1983 (Intervalo) e de 2010 (Sem título) e a improvável obra Volátil (2019), anjo barroco dourado, envolto em tule branco, que pende do teto em um canto do espaço.
Na sala Cubo fica o ponto alto da exposição: Naufrágio (2019). Seria uma vitrine? Ou “um aquário ou uma caixa?”, como pergunta Raphael Fonseca no texto curatorial. A resposta: um pouco de cada. Uma vitrine que exibe antigas porcelanas chinesas quebradas, um aquário onde cacos e peças inteiras parecem nadar em um mar de vidro picado, uma caixa de memórias familiares. Em um ambiente com luminosidade reduzida, os focos de luz são direcionados para a vitrine e para a palavra na parede “naufrágio”, que não é só título mas parte integrante do trabalho. Essa iluminação teatral contribui para a criação da ambiência no espaço e dá ares de tesouro à caixa de vidro posicionada no meio do salão. As louças ali colocadas são peças de família que, mesmo quebradas, foram conservadas pela mãe da artista como relíquia, memória de um tempo passado reverberando para um futuro onde são ressignificadas. São os restos do naufrágio, uma lembrança da morte, recuperada e com novo valor.
Essa é mais uma chance para o público do Rio de Janeiro conhecer o trabalho de Sonia Andrade, que esteve presente também no MAM, até o último mês de setembro, com a mostra “…às contas”, instalação inédita onde a artista pendurou, em nove colunas de correntes de ferro, contas de luz, gás, telefone, televisão, internet e celular acumulados entre 1968 e 2018. Nessa produção, a iluminação também teve importante contribuição para o resultado visual impactante.
O lugar a que se volta é sempre outro – título retirado do poema Là-bas, je ne sais où, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, e lembrado por Andrade em conversa com o curador – fica em cartaz até o dia 21 de dezembro.
O lugar a que se volta é sempre outro
Sonia Andrade
Curadoria de Raphael Fonseca
Athena Galeria
Rua Estácio Coimbra 50 – Botafogo – Rio de Janeiro
De terça a sexta, das 10h às 20h
Sábados, das 12h às 18h
Até 21 de dezembro de 2019
Entrada gratuita
Classificação livre
https://galeriaathena.com/












