“São ilhas afortunadas, são terras sem ter lugar (…)”
Fernando Pessoa
Há uma convocação irrefutável a refletirmos sobre a ideia de deslocamento para além do ato em si, quando nos deparamos com a exposição instalativa Os vivos e os mortos, de Jonas Arrabal. Da grande árvore morta tombada, passando pelos resíduos coletados do mar até as placas de cimento gravadas à mão, significados e significantes remetem a movimentos migratórios, tanto no âmbito das fisicalidades geográficas e geológicas, quanto das subjetividades que envolvem memória, história e origem.
Ocupando três salas do Paço Imperial, com curadoria de Ivair Reinaldim, quatros trabalhos dialogam poeticamente em uma grande instalação, resultado de pesquisa iniciada pelo artista em 2015. No primeiro momento da mostra, uma casuarina deitada no assoalho impacta o espectador com suas raízes expostas, como se arrancadas do solo. O deslocamento no sentido de locomoção emerge inicialmente ao pensamento com um questionamento inevitável: como uma árvore, oriunda da Ilha do Japonês, em Cabo Frio, teria chegado ao segundo andar do antigo palácio real da Praça XV?
Encontrada pelo artista já derrubada, com a raiz e metade do caule na areia, enquanto o restante avançava para o mar, a árvore foi içada, trazida de barco ao continente e transportada por caminhão até a cidade do Rio. Os desdobramentos simbólicos deste ato de remoção remontam aos processos migratórios que fazem parte da história antiga e recente da humanidade. Há indícios de que as casuarinas, que são naturais do continente asiático, da Austrália e de algumas ilhas do Pacífico, foram trazidas para o litoral fluminense, na década de 1940, com intuito de amenizar os ventos. Resistente às intempéries climáticas dos trópicos e à salinidade, esta espécie arbórea, muito presente na paisagem local, tem sido considerada “planta invasora” por supostamente ameaçar a flora nativa. A narrativa histórica se aproxima dos relatos de povos que passaram por transcursos de migração, impostos ou cobiçados, antigos ou recentes. A transferência do local originário para uma ressignificação da existência em outro espaço e contexto está física e metaforicamente representada na obra.
Retirados das águas da mesma ilha, detritos e artefatos dispostos na parede remetem à memória e ao tempo histórico de materiais descartados, que em algum momento foram presentes na vida das pessoas. Desvirtuados de suas funcionalidades e deixados ao acaso, evocam ponderações sobre as interferências do homem na natureza. Esvaziamento, ausência e abandono, aspectos recorrentes na produção de Arrabal, se fazem presentes neste trabalho, onde o deslocamento é depreendido como acepção de afastamento e desvio.
Em duas obras, a palavra surge como manifesto representativo da fala dos povos migrantes. Com narrativa que mescla ficção e realidade, o vídeo Roteiro para um filme sem imagens, como o próprio título revela, não tem cenas, apenas a locução em japonês com legendas em português, aludindo às complexas questões de língua e linguagem. Enquanto as placas de cimento com texto gravado à mão, que se assemelham a lápides, clamam por diversas comunidades em movimento de transferência de território, passado ou presente.
O processo poético de Jonas Arrabal tem seu âmago centrado no mar e em suas temporalidades. Nesse universo imaginativo, o sal marinho é o elemento simbólico dos acúmulos de memória, mesmo quando presente de forma indireta na impregnação histórica dos objetos. Em Os vivos e os mortos, pela investigação desses estratos do tempo, o artista emprega a morfologia do deslocamento como meio de transmutar a tradição em algo novo. Um ato contínuo de escavação de camadas profundas para a constante transformação do sentido de existência do ser, dos lugares e das coisas.
Os vivos e os mortos
Jonas Arrabal
Curadoria de Ivair Reinaldim
Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro
De terça a sexta, das 12h às 19h
Sábados e domingos, das 12h às 18h
Até 27 de outubro de 2019
Entrada Gratuita
Classificação livre









