A cidade de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, faz parte de um eixo comercial entre o mar e o sertão por onde passam mercadorias diversas, desde artigos de uso doméstico e materiais de construção, até roupas e alimentos. Deste universo de circulação mercante e humana em que vive, Marcos Reis Peixoto, o Marepe, retira objetos cotidianos relacionados à vida comum e memória pessoal, deslocados de funções usuais e significados, para reelaborar obras artísticas de caráter onírico.
Em exibição na Pina Estação, em São Paulo, a exposição Marepe: estranhamente comum apresenta um conjunto de cerca de 32 trabalhos que percorrem os 30 anos de carreira do artista. Com curadoria de Pedro Nery, a retrospectiva dispõe de três agrupamentos de obras, organizados por ações ou atos simbólicos recorrentes no percurso poético de Marepe: mover, transformar e condensar. Apresentados como elementos-guia para pensar a obra do artista, os “verbos” ocupam as salas do quarto andar da instituição com esculturas, pinturas, desenhos, instalações, videos e fotografias ligados a sua história ou seu redor.
Na obra de Marepe, o ato de mover é tirar de lugar o que parece estar em ordem, desintegrando as relações e percepções que parecem ser comuns e naturalizadas. Na sala Mover, obras repensam os deslocamentos tanto na forma das peças, quanto na precariedade da vida improvisada em pequenos espaços, como A mudança (2005) e Embutido Recôncavo – Recôncavo Embutido (2003), onde a mobilidade e transitoriedade estão simbolizadas no caminhão-casa e na casa dobrável. Ao mesmo tempo que Periquitos (2005) é a representação de uma televisão em grande escala, que além do estranhamento da desproporção em objeto tão habitual, traz a repetição da memória como movimento mecânico por imagens multiplicadas do artista, quando criança. Essa é a primeira montagem de Periquitos no Brasil, originalmente pensado para a individual do artista no Centre Georges Pompidou, em Paris.
Em Transformar, estão exibidos trabalhos compostos por novos arranjos narrativos, como O retrato de Bubu (2005), pertencente ao acervo da Pinacoteca, que traz a imagem do avô de Marepe. Na mesma individual no museu francês, o trabalho foi pendurado ao lado do retrato de Georges Pompidou, ex-presidente da França, posicionado na entrada da instituição, dando o mesmo patamar de igualdade entre o político europeu e seu familiar. O ato de transformar, aqui, se dá na relativização do ausente nas ordens social, pessoal e geográfica. Para Marepe, sua produção não é ready-made, mas nécessaire, o que sugere que a criação de suas obras traz questões de necessidade e sobrevivência. Em outros trabalhos, objetos repetidos e acumulados dão a ideia de transformação quando criam novas possibilidades de significado por suas composições formais, como na instalação Desemboladeira (2004). Já em Satélite baldio (2006/2007), a acumulação ganha outro sentido quando os muitos baldes simples se transformam ironicamente na esfera que remete a um aparelho tecnológico sem utilidade, baldio.
Na última parte da exposição, permitindo o contato entre universos distanciados, as obras de Condensar trazem referências ficcionais, apenas possíveis no ambiente onírico. Como na obra Conjunto de cabaças (2007), utensílios comumente utilizados para transportar água no sertão, são apresentados em metal, aludindo a formas criadas a partir da solidificação de líquidos. Ou Doce céu de Santo Antônio (2001), em que o artista é fotografado de baixo pra cima segurando um algodão-doce como se estivesse comendo um pedaço de nuvem. Em Cânone (2006), a representação tridimensional dos guarda-chuvas das pinturas do artista belga Renê Magritte criam instalação de ambiência metafísica surrealista. Nestas produções, a materialidade é usada por Marepe como meio de expressar a imaginação.
Marepe: estranhamente comum traz questões basilares que interessam o artista como a pobreza, as relações de trabalho, a precariedade da vida, a não idealização do entorno, entre outras tantas, extrapolando os limites do imaginário artístico nordestino para uma reflexão de amplitude nacional.
Marepe: estranhamente comum
Curadoria de Pedro Nery
Pina Estação
Largo General Osório, 66, 4º andar – São Paulo
De quarta a segunda, das 10h às 17h30 – com permanência até as 18h
Até 28 de outubro de 2019
Entrada gratuita
Classificação livre
http://pinacoteca.org.br/













