Por Valesca Veiga
“¡Y mirad! en las mil filigranas
hallaréis alfileres punzantes;
y, en la pedrería,
trémulas facetas
de color de sangre”
Rubén Darío
Uma massa vermelha com cerca de seis milhões de metros de fios emaranhados parte da máquina de costura antiga e se espalha pelo chão da galeria. Como em outras obras instalativas, Adrianna Eu emprega a linha como centro estruturante de um pensamento que privilegia o desvio, a imprecisão e o acaso. O vermelho, cor predominante na maioria de seus trabalhos, evoca sangue, violência, dor, ao mesmo tempo que amor, paixão e afeto. Para a artista, o vermelho é a cor que vem de dentro. E seu processo poético, forjado na costura dos avessos, irrompe de dentro para fora.
Em nova individual na galeria Luciana Caravello, no Rio de Janeiro, através da representação de elementos da costura e do próprio ato de costurar, sempre presentes no universo simbólico que permeia sua trajetória, obras inéditas trazem questões caras à Adrianna como a construção da identidade de si mesmo e de seu lugar no mundo. A partir desta posição de elaboração do eu, a produção recente da artista remete à situação de não pertencimento e de desconstrução da ideia de aprisionamento do sujeito em modelos sociais estabelecidos. Em Menino veste azul, menina veste rosa, dois colarinhos puídos e entrelaçados aludem à dificuldade de encaixe em padrões de gênero. Os moldes antigos para modelagem de costura, que Adrianna costuma garimpar em mercados de pulgas e antiquários de vários lugares do mundo, estão presentes em Saias de seguimentos, mostrando as diferenças de itens de vestuário para homens e mulheres, como únicas condições possíveis de adequação.
Peças que servem para unir duas partes da vestimenta, os botões, aqui desviados de suas funções originais, aplicados delicadamente em linho claro, compõem formas semelhantes a mapas que identificam posições de privilégios sociais e falta de oportunidades. Em alguns trabalhos, casas em tamanho destoante dos botões trazem a ideia de não conformidade, desproporção e desarmonia das relações interpessoais e das circunstâncias de poder presentes nos dias atuais. O vermelho dá lugar aos brancos, ocres e marrons das pequenas peças arredondadas, requerendo atenção do espectador na sutileza dos contrastes, por vezes quase imperceptíveis. Assim como os fios, que dão voltas intermináveis ao nosso olhar, falando da não-linearidade da vida e de todos os percursos entrecruzados que nos conectam e nos afastam como densos grumos embolados, os botões se referem ao não cruzamento de propósitos e condições, à falta de simetria e ajuste na indefinição.
As palavras bordadas, a tesoura e os carretéis amarrados por linhas, a corda teresa feita de recortes de camisas sociais adensam a atmosfera de imobilização e inversão de forças. A mostra traz ainda o vídeo de A costura de si (2005), icônica performance em que a artista costura os próprios dedos das mãos, “alinhavando”, de certa forma, todas as obras expostas ao mote poético da construção e reconstrução do ser. Em Costura-se para dentro, Adrianna Eu tece uma teia de objetos, onde os padrões de enquadramento são recusados e o erro e o desvio da costura simbólica estabelecem paralelos com a nossa humanidade (ou falta de) e nosso lugar (ou não-lugar) no mundo. Costurando dos avessos uma delicada filigrana de afeto com cor e gosto de sangue.
1.“E olha! Nas mil filigranas encontrarás alfinetes perfurantes; e, na pedraria, trêmulas facetas de cor de sangue”. DARÍO, Rubén. Rima I. Rimas (https://www.textos.info/ruben-dario/rimas)
Costura-se para dentro
Adrianna Eu
Luciana Caravello Arte Contemporânea
Rua Barão de Jaguaripe, 387 – Ipanema – Rio de Janeiro
De segunda a sexta, das 10h às 19h
Sábado, das 11h às 15h
Até 28 de setembro de 2019
Entrada gratuita
Classificação livre
www.lucianacaravello.com.br














