Por Patricia Lattavo
Uma ideia na cabeça e uma câmera de celular na mão: os recursos da tecnologia mais acessível de hoje em dia são suficientes para uma produção artística intensa e de qualidade? Essa é uma das possibilidades exploradas por Amador Perez em sua individual no Paço Imperial, no Rio de Janeiro. Mas engana-se quem pensa que o processo esteja restrito “apenas” ao meio. Há muitas camadas de significado no trabalho do artista.
Perez começou sua carreira nos anos 1970, trabalhando basicamente com o grafite, mas a inquietude e a inventividade levaram-no por outros caminhos. A exposição Amador Perez DVWC Fotos e Variações, com curadoria de Marcia Mello, mostra a trajetória do artista em três momentos. O primeiro núcleo, Memória FotoGráfica, exibe uma retrospectiva de seus 45 anos de atividade. Ali, entre livros e objetos pessoais, já se observa a variedade de técnicas – como o desenho em grafite e a xerografia – aplicadas sobre imagens impressas e trabalhos seriados, presentes em todos os períodos.
A fotografia é hoje seu principal meio de expressão estética e poética. Das 155 obras que compõem a exposição, 64 são inéditas e fazem parte do segundo segmento, DVWC – Fotos. São trabalhos que mesclam com delicadeza ícones da história da arte e o mais atual e comum dos gestos: fotografar com o celular. Em tamanho reduzido, como o de uma fotografia impressa ou de um cartão-postal, aparecem reproduções de obras de Albrecht Dürer, Johannes Vermeer, Jean-Antoine Watteau e Gustav Courbet – cujas iniciais dão nome à mostra – atravessadas pela intervenção/interação literal da mão de Perez, que surge nas fotos como um afago do presente “instagramável” no passado glorioso das Belas Artes. São reproduções em preto e branco, feitas a partir de livros de arte caros ao artista, “livros de cabeceira”.
Nessa sobreposição de tradição e tecnologia, o público também é convidado a deslocar a contemplação habitual da obra canônica para uma experiência de construção de sentido, a partir do estranhamento causado pela presença da mão “intrusa” na fotografia. A intervenção do contemporâneo em obras antigas não é novidade, basta lembrar as inúmeras reproduções “alteradas” de Monalisa, só para citar a mais óbvia e conhecida. Mas Perez vai além: ao introduzir o próprio corpo, sua presença material na imagem, cria uma interação direta e uma relação ambígua entre um ato de homenagem e um ato de afronta. São trabalhos com potência para gerar reflexões sobre memória e tradição, tempos e espaços difusos e, principalmente, sobre um novo conceito de autoria que o mundo contemporâneo não só possibilita como exige.
No terceiro núcleo, Variações, as mesmas reproduções ressurgem, mas, desta vez, a intervenção é feita pela cor. Nas duas séries, as imagens são impressas em pigmento mineral sobre papel e propõem um jogo de ressignificações por meio de manipulações ou montagens que, às vezes, colorem, outras vezes sombreiam, saturam ou apagam. Dessa forma, uma mesma imagem se multiplica em várias outras, como explica o próprio Perez: “[…] utilizando técnicas manuais e digitais em uma fusão de linguagens, estabeleço um jogo triádico interativo entre as imagens criadas pelos autores originais, as imagens elaboradas por mim e as imagens geradas pela fantasia do espectador”.
As questões suscitadas pelo artista nos levam inevitavelmente a Walter Benjamin e seu ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, escrito nos anos 1930, mas publicado apenas em 1955. Nesse texto, Benjamin trata do impacto que a reprodução técnica ou mecânica teve sobre a arte e a percepção do indivíduo e da sociedade em relação a ela. O filósofo discorre sobre autenticidade, perda da aura, valor de culto, ritual e política na arte, mas também sobre fotografia e cinema. Alguns desses temas, ainda que pareçam superados no contemporâneo, são dignos de leitura e de uma reflexão contextualizada, pois oferecem caminhos para a elaboração de teorias sobre o momento atual. Dentro dessa lógica, a grande virtude de Amador Perez DVWC Fotos e Variações é deixar as portas abertas para a especulação e a variedade de interpretações.
AMADOR PEREZ DVWC FOTOS E VARIAÇÕES
Curadoria de Marcia Mello
Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro
De terça a sexta, das 12h às 19h
Sábados e domingos, das 12h às 18h
Até 27 de outubro de 2019
Entrada Gratuita
Classificação livre
http://www.amigosdopacoimperial.org.br/









