Por Patricia Lattavo
“Djanira pinta febrilmente, sem contar nem discriminar meios e recursos, empregando, por vezes, num só quadro, todos os processos e invenções de cozinha e métier que lhe ensinam. E não rejeita material – pincéis grossos ou finos, massas contra massas, matéria pastosa ou rala, arabescos ou desenhos fechados: só a fatura não varia, quase tempestuosa, revolta, livre.”
Mário Pedrosa1
Uma mansão no Cosme Velho, bairro bucólico do Rio de Janeiro, cercado de mata atlântica, aos pés do Cristo Redentor. Talvez não haja melhor lugar para receber a exposição Djanira: a memória de seu povo. A casa em questão foi moradia do empresário Roberto Marinho e hoje, transformada em instituto cultural, abriga sua vasta coleção de obras de arte e exposições de artistas que dialogam com esse acervo.
A pintora Djanira da Motta e Silva (1914 – 1979) teve grande atuação artística entre os anos 1940 e 1970. De origem modesta, chegou a trabalhar na lavoura de café, foi também costureira e dona de pensão em Santa Teresa, bairro vizinho ao Cosme Velho, onde agora sua obra é exposta. Começou como pintora autodidata e em seguida passou a ter aulas com Emeric Marcier, com quem desenvolveu sua técnica.
Considerada naïf e primitiva pela crítica da época, que atribuía às suas origens tais características, Djanira refutava esses rótulos por considerá-los preconceituosos e elitistas. Apesar de concordar que a vivência mais próxima ao povo e às dificuldades da vida tenham moldado sua obra, é consenso entre a crítica atual que o modo de construção das telas, com poucos planos e com o uso de cores vibrantes, é sofisticado e original. “A cor constrói a forma”, disse Mário Pedrosa. O valor de seu trabalho foi reconhecido por artistas importantes, como Cândido Portinari e Lasar Segall, que além de adquirirem obras, nutriam uma relação de amizade com a pintora. Assim, a mostra tem função reparatória e faz uma revisão histórica da importância da artista para a arte nacional.
Eterna viajante, Djanira foi para os EUA, para a Rússia e para a Europa. Rodou o Brasil, entrando em contato com suas diferentes paisagens e culturas. Dessa riqueza de repertório, surgiram obras que retratam a religiosidade, as festas populares, os indígenas, os trabalhadores e o cotidiano de gente comum.
Djanira: a memória de seu povo, título retirado de uma reportagem de Mary Ventura dos anos 1970, como explicam os curadores Rodrigo Moura e Isabella Rjeille em texto de apresentação, é fruto de uma parceria entre a Casa Roberto Marinho e o MASP, onde foi exibida de março a maio deste ano. Os trabalhos que compõem a mostra cobrem os mais de 30 anos de atividade da artista e dão ao público um panorama de sua obra. Entre as mais de 60 telas em exposição, 10 fazem parte da coleção particular de Roberto Marinho.
Os primeiros trabalhos, da década de 1940, são compostos principalmente por retratos e autorretratos – cujas linhas remetem imediatamente a Amedeo Modigliani – cenas de espaços interiores, como Interior de cozinha (1942) e Composição no 1 (1942), e paisagens. Entre os autorretratos, o que mostra Djanira em primeiro plano e seu companheiro Milton Dacosta ao fundo é importante pela simbologia. Além de exibir a relação de Djanira e Dacosta e a influência que este teve sobre seu trabalho, a tela de 1945 promove a inversão da obra Composição [interior de ateliê], produzida pelo pintor em 1944, na qual retrata Djanira em segundo plano. Invertendo as posições, a artista se coloca como protagonista da cena. Nesse período os tons são mais rebaixados, a pintura mais escura. Mesmo os trabalhos com temas festivos, como O circo (1944) e Parque de diversões (sem data), possuem fundos sombrios, sobre os quais as figuras coloridas se destacam.
A mudança nas cores começa a ser observada a partir de 1945, ano em que Djanira viveu em Nova York e retratou o Central Park, a neve e patinadores no gelo. A volta dos EUA marca também o momento em que a pintora começa a se envolver mais com questões políticas e se aproxima da militância do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Começam suas viagens pelo Brasil e seu interesse pelos trabalhadores torna-se tema de trabalhos. Uma das primeiras telas que revelam esse interesse é Vendedora de flores (1947), que retrata uma mulher humilde, mestiça, de pés descalços, rodeada de flores e figuras imaginárias que formam, segundo o curador, “uma complexa junção entre diferentes planos de realidade”.
Essa imagem guarda alguma semelhança com a pintura Mameluca (1643), de Albert Eckhout, que faz parte da série de representações etnográficas produzida pelo pintor holandês no Brasil. Ainda que partindo de motivações distintas e de estilos absolutamente antagônicos, já que falamos de uma pintura do século XVII, a figura da mulher mestiça, descalça, carregando flores e com uma expressão facial similar, sugere uma aproximação entre essas personagens. Elas poderiam ser a mesma pessoa na visão de dois artistas de épocas e gêneros diferentes.
A partir da década de 1950, a paleta de cores se torna mais vibrante. A tela Mulher olhando na janela (1950), alter ego da artista, é emblemática desse período. A mulher de vermelho, em primeiro plano, se debruça à janela para contemplar o bairro de Santa Teresa e seus habitantes. Para a curadoria, o quadro é uma metáfora: “a paisagem das montanhas anuncia simbolicamente as viagens que ela fará a seguir.”
E são mesmo as viagens que darão o tom aos trabalhos dali em diante. Entre 1954 e 1955, com ateliê em Salvador, na Bahia, ela se encanta com o candomblé e com os temas afro-brasileiros. Muita religiosa – chegou a vestir o hábito de irmã leiga da Ordem Terceira Carmelita, em 1972 – mas com total compreensão do sincretismo religioso característico da população brasileira, retratou com igual respeito e delicadeza orixás e santos.
A passagem pelo Maranhão, aproximou Djanira das populações indígenas. Tinha essa ascendência por parte de pai mas não conhecia sua etnia. Sentiu-se identificada com o povo Canelas daquela região e retratou com dignidade seus membros. Em Estudo para índia canela (1960), mostra uma mulher com suas pinturas características, que encara o espectador de frente. Não é sexualizada nem estereotipada. É a imagem do que Djanira viu: uma igual.
As visitas às jazidas de minérios em Minas e de carvão em Santa Catarina, também tiveram impacto em sua produção. Os trabalhos da década de 1970, expostos na última sala da mostra, surpreendem: depois de tanta cor, as telas Trabalhadores de cal (1974) são quase monocromáticas, com presença marcante da geometria. O branco do cal só é maculado pelos olhos dos trabalhadores que, junto com a cor escura de suas peles, parecem formar máscaras. Nessa sala estão também os trabalhos que retratam as minas de ferro de Itabira, terra natal do poeta Drummond que, como Djanira, também incorporou-as à sua obra. Ambos compreenderam a violência da mineração e seu poder de destruição.
Apresentados de forma cronológica e didática, os trabalhos e o percurso de Djanira ajudam a compreender um pouco mais nosso país e, sobretudo, o que foi a vida das mulheres artistas do século passado. Apesar dos temas abordados serem ainda muito atuais, como a exploração dos trabalhadores, as questões indígenas ou degradação ambiental provocada pela extração de minério, o que parece mais importante na exposição é a proposta de reparação e reposicionamento dessa pintora na história da arte brasileira. Revisões históricas como essa são necessárias para a correção de injustiças que, ao longo do tempo, relegaram a segundo plano figuras importantes para a formação da cultura nacional.
1.PEDROSA, MARIO. Djanira, 1958. Dos Murais de Portinari aos Espaços de Brasília. Organização Aracy A. Amaral. Pg 157. São Paulo: Editora Perspectiva, 1981.
Djanira: a memória de seu povo
Curadoria de Isabella Rjeille e Rodrigo Moura
Instituto Casa Roberto Marinho
Rua Cosme Velho, 1105
De terça a domingo, das 12h às 18h (inclusive feriados)
Até 27 de outubro de 2019
Entrada: R$ 10,00 (inteira), R$5,00 (meia-entrada)
Ingresso família: R$ 10,00 para grupos de 4 pessoas
Gratuidade às quartas-feiras
Classificação livre











