Por Valesca Veiga
Para um dos grandes pensadores do psiquismo humano, Carl G. Jung, o si-mesmo ou self é o arquétipo central da totalidade psíquica do homem, abrange o consciente e inconsciente, e é representado simbolicamente pelo círculo, pelo quadrado, pela criança, pela mandala. No livro Memórias, sonhos e reflexões, Jung relata que tornou-se claro para ele que “a meta do desenvolvimento psíquico é o si-mesmo. A aproximação em direção a este último não é linear, mas circular, isto é, ‘circum-ambulatória’.” A ideia antiga de circumambulação, como ritual de andar em círculos em torno de um objeto sagrado, adquire simbologia do si-mesmo no pensamento junguiano, onde o movimento de rotação indicaria a concentração em um ponto central da personalidade humana.
Imbuída desta concepção arquetípica, a artista Anna Bella Geiger desenvolveu interesse em pensar a arte pela simbologia do centro, como convergência e busca da unidade do ser. Em 1972, propôs um trabalho coletivo com alunos de artes visuais do Museu de Arte Moderna do Rio, a partir de ações em torno da Lagoa de Marapendi, que resultaram na mostra instalativa Circumambulatio. Considerada um divisor de águas no processo poético da artista, aproximando-a da arte conceitual, a proposta empreendeu a incorporação da palavra e experimentações de novas mídias e suportes, como fotografia, vídeo e, mais tarde, livros e objetos, que passaram a fazer parte de sua produção nas décadas subsequentes. Agora, uma releitura desta icônica exposição site-specific pode ser vista em Anna Bella Geiger – Aqui é o centro. A individual também apresenta 20 obras das décadas de 1960 a 1990, pertencentes ao acervo do museu.
Com curadoria de Fernanda Lopes e Fernando Cocchiarale, na primeira sala, a exposição exibe um panorama dos trabalhos de Geiger: das gravuras iniciais aos objetos que marcam a trajetória da artista, como as gavetas de mapoteca em metal e cera. Os mapas e as referências do solo, sempre muito presentes em sua obra, trazem questões além da geografia e da geologia. Disputas político-territoriais, concepções econômicas estratificadas em desenvolvimento e subdesenvolvimento, relações de poder por zonas de fronteira, entre outros temas dos anos 1960 e 1970, que participavam do debate estético-cultural brasileiro, estão intrinsecamente relacionados a sua cartografia. Trazem discussões sobre os pontos de referência do lugar de centro do mundo, historicamente fixado por países considerados mais desenvolvidos, como no desenho Am. Latina (1977), onde quatro representações de mapa são nomeadas de Amuleto, A mulata, A muleta e Am. Latina.
A segunda sala apresenta a releitura de Circumambulatio, originalmente realizada com alunos e agora montada com a colaboração da equipe técnica do museu. Geiger repensou o espaço atual do MAM mantendo a lógica do percurso rotatório, transformando a sala quadrada em circular. Imagens e textos que giram em torno das ideias de circumambulação e centro estão dispostos pelas paredes, tanto com referências advindas da primeira montagem, quanto com novas inclusões. Um dos destaques é a obra de Claudia Andujar, que foi adquirida como acervo no intervalo entre as duas montagens e teve seu original incorporado à mostra atual. Textos anteriormente anexados, como as entrevistas ao público sobre o que é centro, estão presentes na exposição do mesmo modo que declarações dadas pela artista em 2016.
O resultado das ações experimentais da Barra da Tijuca aponta para a concepção de centro como “lugar de transformação criadora” na arte, com suas formas espiraladas e escavadas no solo, que remetem à mandala e à totalidade do ser. Fotografias e vídeos destas atividades coletivas de arte ambiente, expostos na parte externa da sala, assim como os registros das vitrines de documentação, nos levam à representação do pensamento da artista de que “o centro não é simplesmente estático. Ele é o núcleo de onde partem o movimento do uno para o múltiplo, do interior para o exterior”.
Aqui é o centro enfatiza o caráter experimental da produção de Anna Bella Geiger a partir dos anos 1970. Acrescida da releitura de Circumambulatio, a exposição traz, entre outras reflexões, o centro simbólico do psiquismo humano relacionado a questões da forma e do espaço. Aborda o interesse da artista pela geografia e suas relações com mapas, política, fronteiras, pontos centrais e periferia, temas recorrentes em seus trabalhos e que permeiam sua obra até os dias de hoje.
Anna Bella Geiger – Aqui é o Centro
Curadoria de Fernanda Lopes e Fernando Cocchiarale
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM Rio
Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo – Rio de Janeiro
De terça a sexta, das 12h às 18h
Sábados, domingos e feriados, das 11h às 18h
Entrada: R$14 (adulto); R$7 para estudantes maiores de 12 anos
Amigos do MAM e crianças até 12 anos têm entrada gratuita
Ingresso família aos domingos: R$14 para até 5 pessoas
Gratuidade para todos às quartas-feiras
Até 04 de agosto de 2019
Classificação livre
www.mamrio.org.br













