Paul Klee - Mulher com roupa típica, 1940 - 48 x 31,3 cm, cola colorida sobre papel sobre cartão - Zentrum Paul Klee, Berna.jpg

Os vários tons de Paul Klee

Por Patricia Lattavo

A chance rara de conhecer, reunido em um só lugar, um grande número de obras e informações sobre a vida de um dos artistas fundamentais para a arte do século XX: isso é o que nos oferece Equilíbrio Instável, a mais completa retrospectiva de Paul Klee, na América Latina. O público tem a oportunidade de ver de perto 123 trabalhos do acervo do Zentrum Paul Klee, que fica em Berna, na Suíça, e abriga hoje a maior coleção do artista no mundo, com cerca de 40% de sua produção; além de inúmeros textos biográficos com toda a sua trajetória, o que joga mais luz à interpretação das obras pelos visitantes.

Com curadoria de Fabienne Eggelhöfer, a exposição montada no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, segue uma cronologia que possibilita a visão macro do desenvolvimento do artista, desde os primeiros desenhos de infância, dos anos 1883-87, até os chamados trabalhos tardios, já do final dos anos 1930 e início dos 1940.

Na primeira sala, a exibição de desenhos de infância que, a princípio, nada têm de genial em comparação com qualquer outro, se justifica pelo fato de que Paul Klee conseguia ver neles a naturalidade da expressão pictórica que gostaria de preservar em sua obra. Em Estudos da Natureza, trabalhos apresentados no mesmo espaço, surge um artista em desenvolvimento, aperfeiçoando técnicas por meio de estudos de paisagens e anatomia, prática comum na formação dos pintores da época.

Mas é a partir da série Invenções que a exposição ganha corpo e que a assinatura de Klee se impõe. Esses trabalhos, uma série de águas-fortes feitas entre 1903 e 1905, foram considerados pelo artista sua “primeira obra adequada”. São produções onde Klee distorce as proporções humanas, cria seres híbridos e irônicos que, segundo a curadora, refletem uma visão cética do mundo e um desdém pela conduta burguesa.

A influência familiar marcou a obra de Klee. Filho de um professor de música e de uma cantora, e ele mesmo violinista, teve a produção permeada pela música em trabalhos que se assemelham a partituras musicais, como Harmonia da flora setentrional (1927) e Demagogia (1932). A série Retratos de Família representa uma fase em que o artista, responsável por cuidar do filho e da casa enquanto a mulher trabalhava, tinha as pessoas da família como modelos, mas nem por isso os retratos possuem uma uniformidade. Klee utilizou diferentes técnicas e estilos, ora se aproximando mais de uma representação convencional, ora dando indícios de um flerte com a abstração.

Foi durante os anos 1910 que o artista realmente se aproximou da linguagem abstrata, influenciado pelo cubismo, pelo orfismo de Delaunay e por Wassily Kandinsky. E, apesar de não haver nos textos expositivos a menção a Paul Cézanne, as telas Nas casas de St. Germain (1914) e Sem título (cidade de tendas nas montanhas, 1920), nos remetem às paisagens de montanhas do pintor francês. Nesse período fica evidente também o talento de Klee como grande colorista. Essa aproximação com as cores é atribuída às experiências vividas na viagem à Tunísia, em 1904, e à inspiração despertada pelos campos de cor de Delaunay. Além de utilizar as cores em seus trabalhos, Klee teve vasta produção teórica sobre o tema.

Foi durante os anos 1910 que o artista realmente se aproximou da linguagem abstrata, influenciado pelo cubismo, pelo orfismo de Delaunay e por Wassily Kandinsky.

O Mundo como Palco surge no percurso da exposição de forma inesperada e prazerosa. Essa sala possui uma atmosfera diferente das demais. Vemos o Paul Klee amante do teatro e do circo. Aqui estão expostos fantoches coloridos e desenhos de acrobatas, realizando intrincados números de equilibrismo. É um respiro antes da entrada nas obras construtivistas do período do artista como professor na Bauhaus. Inicialmente fabricados como brinquedos para o filho Felix, os fantoches ganharam, ao longo dos anos, status de obra de arte sem perderem o caráter artesanal e a autenticidade popular.

Na série de trabalhos que representam o período Bauhaus, expostos logo depois dos bonecos, são exploradas as potencialidades artísticas da geometria, tanto com fartura de cor, quanto com linhas em bico de pena sobre papel sobre cartão. Estes, inclusive, nos remetem às pesquisas de Lygia Clark com os Planos em superfície modulada e a Linha orgânica. A última obra dessa série, Avô dirigível (1930), diferente das demais, tem um caráter narrativo e, fazendo um uso afetivo da geometria, reúne a ludicidade dos desenhos de circo e de invenções em uma imagem que é um misto de figura humana e engenhoca.

O obra de Klee refletiu, ainda que não explicitamente, questões importantes de um momento crucial da história ocidental com a ascensão do nazismo. Na série que compõe a sala Desenhando a realidade, com a grande maioria dos trabalhos feitos no ano de 1933, vemos desenhos a lápis e giz com traços mais enérgicos, figuras humanas representadas por emaranhados de linhas e títulos como Perseguição, Demagogia e Acusação na rua. Klee odiava Hitler e a convulsão social criada pela ascensão do tirano fez com que emigrasse para a Suíça, no final de 1933.

A figura do anjo esteve presente ocasionalmente na obra de Klee, desde a década de 1920. Mas, a partir de 1938, o artista produz uma série de 40 representações de anjos e oito destes ganham um espaço próprio na exposição, ao lado daquilo que a curadoria optou por chamar de outras criaturas. Os anjos de Klee ganharam notoriedade a partir da aquisição de Angelus Novus pelo filósofo e sociólogo alemão Walter Benjamin.  O Angelus não faz parte da mostra. Ele se encontra, hoje, no Museu de Israel, mas a bela descrição de Benjamin no ensaio Sobre o conceito de história (1940), reproduzida ad infinitum, mostra a qualidade expressiva deste trabalho:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”

Em oposição à imagem tradicional do anjo como ser celestial, esses anjos causam estranhamento, reúnem características humanas e não-humanas e, sobretudo, ganham do artista nomes que fortalecem a ideia de imperfeição ou inadequação: Des-Anjo, Anjo incompleto, Anjo esquecido, Anjo feio

A parte final da exposição é dedicada aos trabalhos tardios, produzidos entre 1938 e 1940, ano de sua morte. São obras de um artista maduro, com uma marca consolidada e inconfundível. Elas evidenciam o uso magistral da cor e uma liberdade de composição que reúne características de todas as fases, além da desejada espontaneidade dos desenhos de infância.

A exposição é encerrada com a exibição do filme Paul Klee -The Silence of the Angel (Paul Klee – Diário de um artista). O filme de Michael Gaumnitz expõe questões sobre o ato de criação do artista sem cair no didatismo, e abre novas possibilidades interpretativas que pedem uma volta ao salão. Mas não é permitido refazer o percurso, a menos que o visitante retire, na bilheteria, um novo ingresso. É a burocracia institucional prevalecendo sobre a experiência estética. Desce-se para pegar o novo ingresso. A fila está grande. Talvez se desista.  Dessa forma, a exposição, além de proporcionar uma imersão na trajetória desse importante artista, acaba servindo também como disparadora de reflexões acerca da institucionalização das artes.

Equilíbrio Instável está em cartaz no CCBB RJ, até o dia 12 de agosto. O recorte apresentado, com forte presença de aspectos da vida pessoal, traça, acima de tudo, uma biografia afetiva, onde a atmosfera de intimidade prevalece. Saímos da exposição mais próximos, não só do artista, mas principalmente do homem Paul Klee.

Equilíbrio Instável

Curadoria de Fabienne Eggelhöfer
Centro Cultural do Banco do Brasil – CCBB RJ
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro
De quarta a segunda, das 9h às 21h
Até 12 de agosto de 2019
Entrada gratuita
Classificação livre
www.culturabancodobrasil.com.br/portal/rio-de-janeiro/