Artur Lescher: Suspensão

Com uma produção que dialoga tanto com a arquitetura, quanto com outros campos do conhecimento, como a engenharia, a matemática, a cosmologia e a filosofia, Artur Lescher tem os principais momentos de sua trajetória reunidos na mostra Suspensão, em cartaz até 24 de agosto, na Pina Estação, em São Paulo. Com curadoria de Camila Bechelany, a retrospectiva enfatiza o vocabulário formal próprio do artista, onde o interesse pelo desempenho dos materiais e a investigação da forma tridimensional convivem com a presença da narrativa em sua poética. Cerca de 120 trabalhos, entre instalações, esculturas, maquetes e cadernos de desenho, resultado de mais de 30 anos de pesquisa, estão divididos em três eixos: Narrativas Líquidas, Suspensão e Engenharia da Memória.

Em Narrativas Líquidas, trabalhos em metal, pedra, madeira e feltro evocam o movimento das águas. Formas e volumes, em grande escala, equilibram-se simetricamente por percursos fluidos que remetem ao curso de rios, cachoeiras e lagoas. É o caso da obra Rio Máquina (2006), que ocupa o centro da sala, com telas de metal suspensas por grandes hastes, chegando a quase sete metros de altura, que se derramam pelo chão. Na série Sal de Cobre, estruturas de ferro maciço, cobertas de sal, são submetidas a um procedimento de eletrólise durante a exposição, cuja reação química torna as esculturas azuis e verdes, como se extraídas do fundo do mar. A passagem do tempo também é abordada com fluidez na videoinstalação Memória (1998), onde a palavra escrita em óleo logo se dissolve, sendo reescrita e apagada novamente sem vestígios. Do mesmo modo em Espelho Líquido, uma instalação com telas de LED, o espectador vê desaparecer, rapidamente, sua própria imagem capturada.

A sala Suspensão, que dá nome à mostra, apresenta um conjunto de trabalhos pendulares, de 1998 até produções mais recentes, que tratam das possibilidades da verticalidade na escultura. Peças em madeira, metal, cabos de aço e fios gravitam pelo espaço discutindo questões entre tensão, limite, proporcionalidade e peso, integrando-se ao espaço arquitetônico da instituição. Nesta parte da exposição, o público caminha por entre os pêndulos como uma comunhão de corpos astrais que desafiam a gravidade, orbitam entre si e ascendem ao infinito.

Os cadernos de Lescher, exibidos aqui pela primeira vez, são a base para Engenharia da Memória, última parte desta retrospectiva. Anotações sobre sonhos, projetos de cidades idealizadas, paisagens imaginadas e esboços deflagram a relação do artista com o mundo exterior, jogando luz às conexões das obras com a engenharia, a matemática, a astronomia e a arquitetura. Nostalgia de Engenheiro, instalação formada por 17 objetos em metal e madeira sobre uma base, como uma mesa de trabalho de um engenheiro-inventor, é inspirada nos espaços urbanos metafísicos da pintura de Giorgio De Chirico.

O processo de Lescher se inicia com o desenho à mão livre ou com a maquete. A partir da ideia tangibilizada no projeto, a escolha do material é fundamental para a posterior instalação dos trabalhos, que não são apenas pensados na lógica da relação com o espaço, mas também com o espectador. A inegável herança da arte construtiva brasileira na obra do artista ultrapassa o foco na materialidade e na experiência, incorporando alegorias que emanam múltiplos significados.

Artur Lescher: Suspensão

Curadoria de Camila Bechelany
Pina Estação
Largo General Osório, 66 – São Paulo
De quarta a segunda, das 10h às 17h30 – com permanência até as 18h
Até 24 de junho de 2019
Entrada gratuita
Classificação livre
Estacionamento conveniado
Acessível para cadeirantes
Wifi aberto ao público
http://pinacoteca.org.br/