Richard Serra, ECHO, 2018, IMS Paulista

Sobre a escultura ECHO de Richard Serra

Por Ana Beatriz Britto*

“Na maioria das vezes, a experiência de uma escultura é inseparável do local no qual a obra reside. Qualquer experiência da obra é enganadora quando separada dessa condição.” 1
Richard Serra

Ponto de referência obrigatório na história da arte do século XX, o norte-americano Richard Serra assume a postura do artista consciente do modo como o produto artístico é consumido em nossa sociedade, assim como de seu papel ativo frente à realidade. Despojada das noções do belo e da contemplação, sua escultura provoca o espectador em sua vida cotidiana. O objetivo do artista é exatamente eliminar a passividade e suscitar um sentido crítico diante da realidade. O trabalho consiste em um corpo-a-corpo com o mundo. O caráter dinâmico de envolvimento do espectador situa a experiência estética em percepção no espaço. Arte como experiência.

Concebida para uma instituição cultural de São Paulo, o Instituto Moreira Salles Paulista, a escultura Echo – duas grandes placas de aço paralelas em inclinação estratégica – instalada na parte dos fundos do prédio, ultrapassa em muito sua constituição formal, pois inclui a participação do público. Antes de mais nada, concebe um diálogo com seu entorno. A escultura de Serra não enaltece a instituição cultural, demanda atenção, modifica o campo de visão do público e engaja o transeunte em uma nova experiência de espaço que provoca questionamentos. O artista torna-se, de certo modo, um crítico do contexto , pois interfere na percepção do espaço urbano.

Serra confronta as contradições do tecido social – o espaço aberto original cede lugar a uma escultura que precisamente não assegura a suposta unidade e harmonia de tal lugar, mas o espaço reduzido evidencia o tensionamento urbano. É um traço da obra site-specific basear-se no confronto com o espaço real e só pode ser entendida enquanto experiência crítica. As esculturas públicas convivem com as tensões e os desequilíbrios do fluxo da vida da cidade e seu sentido artístico advém da abertura, para enfrentar a instabilidade do espaço social cotidiano.

Notoriamente, importantes esculturas de Richard Serra interferem diretamente na percepção do espaço público. O artista se interessa pela experiência da escultura no local onde está instalada, como meio de embate literal entre o seu habitante e as coisas que o cercam. As preocupações que entram no foco do artista são o observador, o local, a escala da obra, sua relação com o lugar e o contexto. Sem dúvida, as esculturas de Serra se pretendem questionadoras, em sua complexa e tensa visualidade, o que torna os sítios de apresentação de suas obras lugares ativos a reconfigurar um espaço. O artista pressupõe, assim, que a escultura é um meio de reflexão em relação ao lugar onde aparece.

Houve uma outra escultura pública do artista que primava pela verticalidade, concebida para uma universidade, mas que não teve a permissão de ocupar o site pretendido. Apesar de ter vencido o concurso, a obra Sight Point (1971-1975) foi rejeitada pelo arquiteto da Universidade Weysleyan, em Connecticut, pela dimensão e proximidade do campus histórico. É claro que o artista pensava exatamente nessas condições de lugar e em construir algo que subvertesse o contexto. Sight Point é uma escultura vertical que emprega os princípios construtivos baseados na força da gravidade e desenvolvidos nas renomadas Prop Pieces dos anos 1960. A obra entrou em conflito com a arquitetura do lugar e acabou sendo instalada na parte externa do Stedelijk Museum, em Amsterdam.

Outra escultura vertical de Serra, Terminal, que está instalada no contexto urbano do maior parque industrial da Europa, na região de Ruhr, em Bochum, na Alemanha, também causou controvérsia e discussão política na cidade. Cartas foram escritas para os jornais locais denunciando os imensos custos da obra para a cidade e a sua eventual inadequação estética. A polêmica se tornou alvo da disputa entre o Partido Democrático Cristão (CDU) e o Partido Social-Democrata, que votara pela aquisição da obra. O CDU alegava que a escultura não representava simbolicamente os metalúrgicos, que esperavam uma obra que enaltecesse o material com elegância, durabilidade e forma expressiva. A escultura de Serra recusava-se à posição de significante simbólico da estrutura econômica capitalista: um produto que prima pela invencibilidade. Ao contrário, a escultura se apresenta de forma simples, como produto do trabalho alienado dos trabalhadores.

É importante destacar que as elaborações tardias de Richard Serra sempre pressupõem aquelas do início da sua trajetória. O artista jamais afastou-se de seus interesses iniciais, como a questão do espaço enquanto experiência perceptiva e política no mundo, foco principal de suas preocupações. E sua escultura recorre a princípios rigorosos, sempre presentes em sua linguagem poética e visual: gravidade, peso, massa, densidade e equilíbrio. Esses princípios também estavam presentes nas Prop Pieces. Tais esculturas já discutiam a dissolução de sentido de coordenação espacial, levando o espectador a uma experiência corpórea de situações-limite, ligada à materialidade do mundo e da vida.

Constata-se, porém, que suas experimentações iniciais (esculturas processuais) cedem lugar, no decorrer do tempo, à prioridade de expansão da escala e a experiência do trabalho em aço corten, material que evidencia a opacidade, dissociando o fazer artístico de qualquer metafísica. Diante das esculturas do artista, podemos atestar que a obra ganhou presença positiva no mundo, solicitando o contato com o fenômeno entendido como experiência material que provoca o enfrentamento do espectador com sua realidade física. Serra impõe uma manobra de apreensão da obra que nos leva a redescobrir e reviver o espaço a partir do peso, da escala e do senso de gravidade.  O artista situa as obras no mundo como maneira de colocar-se no real, o que diz muito da importância do “aqui e agora”, ao invés do caráter de contemplação ligado ao idealismo da tradição filosófica do Ocidente. 

Tal raciocínio supera a noção metafísica de criação como revelação de uma ideia. O artista vive a experiência da escultura, a ser refeita incessantemente, porque inexistem relações predeterminadas. O rigor apurado das obras define-se, muitas vezes, de forma precisa, mas opera no registro do instável, impõe uma vivência instigante. A escultura passa a celebrar o provisório e o circunstancial. O que está em jogo é o paradoxo de uma afirmação do contingente. Os trabalhos põem em evidência o incerto, a impregnação da vida e uma espécie de tensão entre ordem e desordem que responde aos impasses do mundo. Cada uma delas explora determinada situação, um certo contexto, e nos conduz a enfrentar sua presença. Serra realiza, portanto, uma operação incansável de estruturação, solicita a atenção do observador, cujo trabalho será questionar, repor e atualizar nexos individuais e coletivos.

Os desdobramentos da relação entre o artista, o público e o espaço urbano instalaram uma importante discussão quanto à inserção da arte nos espaços das cidades. Tais mudanças ocorridas no campo das artes visuais disseminaram a noção de site-specific que foram produzidas a partir do final dos anos 1950-1960 e constituem um triunfo das tendências que se costumam denominar contemporâneas ou pós-modernas. A natureza desse “fazer artístico”, redescobrindo o tecido urbano, aproxima a arte dos fluxos e das narrativas constitutivos do espaço social. E essa situação veio estabelecer uma relação mais estreita entre a obra de arte, o observador e o espaço de instalação da obra.

A escultura Echo estabelece uma relação complementar com a arquitetura e funciona como contraste ao ambiente institucional. Longe de estabelecer qualquer relação simbólica com o lugar, expõe a coincidência formal que poderia haver com a arquitetura da cidade, que prima pela verticalidade dos edifícios. A afirmação de Serra é que sua obra não se relaciona à história dos monumentos e nem memoriza, pois não enaltece o lugar, relaciona-se à escultura e mais nada. É o entorno, o mundo ao redor, o que determina a forma. A solidez do aço não contém uma forma ideal imanente e encontra equivalência no equilíbrio entre peso e resistência da arquitetura. Tudo indica e evidencia o embate inescapável com a vida.

*Ana Beatriz Britto é professora e organizadora de grupos de estudo de História e Filosofia da Arte. Mestre em História Social da Cultura, na linha de pesquisa de História da Arte e Arquitetura, e especialista em Arte e Filosofia, ambos pela PUC-Rio, desenvolveu pesquisa sobre Richard Serra e o Minimalismo, com dissertação intitulada “Richard Serra: escultura” (2018).

Sobre Echo

Primeira obra de Richard Serra aberta à visitação pública permanente na América Latina. Inaugurada em 23 de fevereiro de 2019 e instalada no jardim externo dos fundos do IMS Paulista, a escultura site-specific é composta por duas placas de aço corten de 18,6m de altura por 3,05m de largura, cada uma pesando 70,5 toneladas.

https://ims.com.br/

1 SERRA, Richard. Escritos e Entrevistas. Textos de Richard Serra. 1967-2013. Org. Heloisa Espada; trad. de Paloma Vidal. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2014. P.81