LAURA BELÉM, Jardim de Guerra

A vida não é só a praticidade das coisas

A coletiva A vida não é só a praticidade das coisas segue em exibição na galeria Silvia Cintra + Box4, até o dia 13 de abril. Os curadores Juliana Cintra e Omar Salomão reuniram obras de 32 artistas que fazem uso da palavra escrita como recurso expressivo. Entre fotografias, desenhos, poesias, pinturas, objetos e até um cartoon de André Dahmer, se destacam nomes como Amilcar de Castro, Antônio Dias, Rubens Gershman, Mira Schendel e Leonilson.

 

O título da exposição é ‘emprestado’ de uma frase do poeta Pedro Rocha, presente na mostra com a obra Moeda Poema (2019), que condiz com o intuito da curadoria de “trabalhar a palavra para além do seu sentido comum”. A extrapolação do caráter logofonocêntrico e utilitário das palavras é um assunto recorrente na historiografia da arte, sendo constantemente revisitado e revirado de maneiras distintas por pesquisadores e curadores.

 

Na exposição, estão presentes produções que lidam com a dimensão imagética das palavras, como a monotipia El Ssssonido (2015), de Cabelo, e o neon Jardim de Guerra (2015), de Laura Belém. Outros trabalhos exploram o caráter icônico das palavras, expandindo os aspectos formais das letras, como em Concha (2005), de Rodrigo Linares, e nas fotografias Construtivista Tabareu (1977) e Alterar Caltdernaro (2007), de Wally Salomão. Também estão representados artistas que se interessam pela dimensão semântica e quebra de expectativa gerada pelo jogo entre título e obra ou entre palavra e imagem, como em Faz tempo (2019), de Gustavo Speridião, e em O silêncio a memória Mariana MG (2016), de Ana Carolina Fernandes.

 

A exposição conta ainda com artistas que trabalham com recursos de apropriação e interferência textual, como é o caso de Pirandelloshakespeare (2019), de Jonas Arrabal e uma página de jornal manipulada por Antônio Manuel, de 1973. A expografia ganha corpo com a presença de objetos, como a bandeira Espreita (2017), de Alexandre Vogler, o carimbo gigante Vale o escrito (2015), de José Damasceno e as caixas Bangu 1 (2002) e Match box 70 (1990), de Rubens Gerchman.

 

Destaque para Ofereço companhia (Partículas), de 2016, de Anna Costa e Silva, que confere uma camada sensorial para seu trabalho ao aproximar as ações de escuta e leitura, exigindo atenção plena do visitante e sugerindo que, mais do que ler (decodificar palavras), é importante ouvir (produzir sentido e identificar intenções). Também chama atenção o livro de Mariana Manhães Sobre as relações entre as coisas da casa (2016). A obra é uma série de 38 fotomontagens que inicia com um texto de linguagem fortemente sinestésica, que ativa o corpo e a memória do leitor para as imagens que vêm em sequência.

 

Mais do que uma narrativa coesa, a reunião dos trabalhos na exposição constitui uma polifonia da qual não é possível apreender um sentido único, mas constatar a diversidade de questões formais e conceituais que o tema do uso da palavra escrita aciona no campo das artes visuais.

 

A vida não é a praticidade das coisas

Curadoria de Juliana Cintra e Omar Salomão
Galeria Silvia Cintra + Box 4
Rua das Acácias 104, Gávea – Rio de Janeiro – RJ
De segunda a sexta-feira, das 10 às 19h
Sábados, das 12 às 18h
Até 13 de abril
Entrada gratuita
Classificação livre