Gramática da memória

Por Patricia Lattavo

Cobra Criada é a nova exposição de Frederico Filippi, em cartaz até o dia 6 de abril, na galeria Athena, no Rio de Janeiro. Há alguns anos, Filippi desenvolve pesquisas relacionadas aos processos civilizatórios sofridos na América. Em Cobra Criada, o foco está na Amazônia e em sua ocupação predatória por meio de desmatamento, exploração mineral, industrialização e tráfico de drogas. O artista teve períodos de imersão na floresta que deram aos trabalhos a força de um relato.

A mostra ocupa as duas salas da galeria. Na sala menor, está disposta a série intitulada Gramática. São lascas de madeira pintadas, organizadas na superfície de telas. A impressão é de que apresentam alfabetos em caracteres desconhecidos, como uma espécie de código. As lascas de madeira, assim como as Cascas, de Georges Didi-Huberman, em livro que recebe o mesmo título, são repositórios de memórias. Se, no livro do filósofo francês, as cascas retiradas de árvores do campo de concentração de Birkenau são “lascas de tempo” e ainda ecoam “o uivo de milhares de dramas”, as lascas de Filippi ganham significado similar ao representarem os trabalhadores sem-terra assassinados no massacre de Eldorado de Carajás. É a possibilidade da madeira carregar em suas camadas os relatos da História.

A sala 2 abriga as produções Se uma lâmina corta um olho, uma selva azul escorre dele e Cobra Criada. A primeira é uma série de chapas de aço, dez precisamente, pintadas de preto, arranhadas por outros materiais numa ideia de fricção e abrasamento, segundo o próprio artista. Seria o embate entre a agressividade dos equipamentos industriais e a fragilidade do ecossistema amazônico. Visualmente, lembram quadros negros rabiscados por giz branco e é possível até ouvir o aflitivo barulho do giz machucando a superfície. Essas chapas intercalam as peças da obra Cobra Criada: pedaços de correntes de motosserra apoiadas sobre trilhos que nos remetem a notas musicais repousadas sobre as linhas da partitura. Em uma segunda olhada, parece-nos algo a ser decifrado, um Código Morse, talvez, com seus sinais e intervalos. Só com a aproximação é possível entender que ali estão os elos de uma corrente de motosserra, ferramenta de “destruição e construção” como pontuou Fábio Zucker no texto de curadoria.

Esteticamente o resultado é positivo. As correntes, ocupando diferentes alturas das paredes, criam uma sensação de movimento ainda mais acentuado quando interrompido – e logo depois retomado­ – pelas chapas de aço “rabiscadas”. Apesar da ênfase dada aos materiais primários, que servem para reforçar a crueza da proposta, a expografia é leve, delicada, e as obras parecem flutuar na galeria.

Cobra Criada é capaz de gerar reflexões sobre memória e testemunho, sobre nossa fragilidade e, principalmente, sobre a necessidade de desconstrução/criação de diferentes linguagens, para dar conta de realidades tão duras que o desgastado e banalizado léxico comum não alcança. Nas palavras de Frederico Filippi, os textos que emergem dos trabalhos expostos “são como a dissolução da gramática e falam sobre uma linguagem não decifrada”, mas a decifrar.

Cobra Criada

Frederico Filippi
Curadoria de Fábio Zuker
Galeria Athena
Rua Estácio Coimbra, 50 – Botafogo – Rio de Janeiro
De terça a sexta, das 11h às 19h.
Sábado, das 12h às 17h.
Até 06 de abril
Entrada gratuita
Classificação livre
http://www.galeriaathena.com

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