Apresentada como a primeira retrospectiva de Rosana Paulino, A costura da memória percorre 25 anos da produção da artista por 140 obras, que têm no centro de seu interesse a mulher negra, protagonizando uma contundente crítica à formação social brasileira e seu caráter racista e misógino.
Logo na primeira sala da exposição estão duas obras emblemáticas de Paulino: Parede da memória (1994), em que retratos de seus parentes foram gravados sobre patuás de tecido, e Bastidores (1997), em que mulheres de sua família são representadas com bocas, olhos e pescoços costurados. Estamos diante de uma violência que acontece no cotidiano de maneira lenta e quase imperceptível, mas que agride profundamente. Nesse sentido, talvez a palavra “costura” não seja a mais adequada. As linhas de Rosana são pretas, pesadas e lembram pontos cirúrgicos. São suturas.
Na sala seguinte, a impressionante instalação Tecelãs (2003) propõe uma analogia entre as mulheres e os insetos. O feminino como ser de transformação cíclica, de constante metamorfose: a mulher tira de dentro de si os fios com que faz seu casulo. E neste núcleo, também estão expostos alguns conjuntos de desenhos nos quais a artista explora um tipo de biologia simbólica em que as questões de gênero são subvertidas a partir de aproximações morfológicas.
A impressionante instalação Tecelãs (2003) propõe uma analogia entre as mulheres e os insetos. O feminino como ser de transformação cíclica, de constante metamorfose: a mulher tira de dentro de si os fios com que faz seu casulo.
Por último, uma sala dedicada ao ressignificado das pseudociências que tentaram justificar a exploração dos negros durante a escravidão. Nesse espaço, se destaca a obra Assentamento (2012) composta de figuras em tamanho real de uma mulher escravizada, retratada por Ausgust Sthal para a expedição Thayer, comandada pelo cientista Louis Agassiz. As imagens monumentais, impressas em tecido, são acompanhadas de vídeos e fardos de mãos.
De modo geral, a exposição se constitui mais como uma panorâmica do que uma retrospectiva, sobretudo, porque deixa a impressão de que a intenção da curadoria não foi apresentar uma mostra cronológica, mas uma tentativa de organizar a produção da artista a partir de temas recorrentes em sua trajetória: memória e gênero, compreensão da natureza, racismo e machismo. Todos os três ambientes da mostra partem de buscas pessoais de Rosana Paulino para apontar sobre reflexões sociais. Sendo assim, suas obras também revelam uma busca constante pela ancestralidade e pela conexão consigo mesma. A utilização de elementos biográficos como fotos pessoais, linhas, agulhas, tecidos, fios de cabelo e objetos ordinários do âmbito doméstico, discute a construção das subjetividades atravessadas pelas relações de poder.
A costura da memória é um reconhecimento mais que necessário a uma artista cuja produção é tão diversa e potente. Mas por que demorou tanto tempo para uma instituição brasileira de peso realizar uma individual de fôlego como esta? É preciso ter em vista que os espaços da arte para as mulheres negras continuam restritos. A seu modo, Rosana Paulino revisita a história para fazer história.
* Resenha publicada em 21/02/2019 durante a temporada na Pinacoteca de São Paulo.
Rosana Paulino: a costura da memória
Curadoria de Valéria Piccoli e Pedro Nery
Museu de Arte do Rio
Praça Mauá, 5 – Centro – Rio de Janeiro
De quarta a domingo, das 10h às 17h30
Terças, das 10h às 19h
Até 25 de agosto de 2019
Entrada: R$ 20,00 – meia-entrada: R$ 10,00
Gratuidade às terças
Classificação livre
*Entre 25 de maio e 25 de junho, o MAR terá gratuidade em todos os dias de funcionamento
Exibição anterior
Pinacoteca de São Paulo
Praça da Luz, 2 – São Paulo
De quarta a segunda-feira, das 10h00 às 17h30
Até 04 de março de 2019
Entrada: R$ 6,00 (adultos)
Meia-entrada para estudantes com carteirinha: R$ 3,00
Isentos: menores de 10 anos e maiores de 60
Gratuidade a todos aos sábados
Classificação livre









