O que os olhos não veem

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Com proposição olfativa, Laercio Redondo explora o invisível na arte brasileira

[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Por Ludimilla Fonseca[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Relance é uma exposição que se constitui a partir de pesquisa histórica que propõe outra narrativa para a arte no Brasil. Essa proposição revela apagamentos e ausências na historiografia tradicional a partir de experiências olfativas relacionadas com obras selecionadas pelo artista Laercio Redondo no acervo da Pinacoteca de São Paulo.

 

Redondo tomou como referência uma prática não usual de Estevão Silva (1844-1891), o primeiro pintor negro a frequentar a Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro. Ao apresentar suas naturezas-mortas, o artista escondia frutas e flores atrás dos quadros, fazendo com seus odores também fizessem parte da fruição das obras. Este foi o ponto de partida para a criação dos diálogos olfativos apresentados na exposição e que convidam o público para uma experiência que extrapola a visualidade.

 

As intervenções ocupam o Octógono e outras 14 salas da Pinacoteca, nas quais Redondo instalou displays posicionados em frente a produções de artistas da coleção, como Anita Malfatti, Claudia Andujar e Maria Martins. Alguns dos displays possuem cartões olfativos que o público pode cheirar enquanto observa os trabalhos. As fragrâncias foram criadas exclusivamente para a exposição e estabelecem relações diretas entre aquilo que se vê e memórias pessoais e coletivas.

 

Por exemplo: o odor que acompanha o quadro “Amolação interrompida” (1893) de Almeida Júnior tem um cheiro metálico, frio e cortante, como o próprio facão que o personagem amola, chamando atenção para o clichê do “caipira pacato”. Já a fragrância que acompanha a pintura “Bandeirante e índia” (1920-1936) de Henrique Bernadelli tem cheiro úmido de mata, de terra e musgo, que abre caminho pelas trilhas dos indígenas que se tornaram as trilhas dos bandeirantes e, posteriormente, as estradas. Assim, o artista destaca que o bandeirante historicamente retratado como “desbravador e destemido é o mesmo impiedoso e devastador”.

 

Já nos diálogos com o acervo em que Laercio Redondo buscou enfatizar as ausências da coleção, não há cartões olfativos: apenas um texto que explicita tais lacunas. Nestes casos, os displays estão posicionados ao lado de serigrafias monocromáticas em preto que reproduzem “imagens ausentes”. Como o retrato do artista negro Emmanuel Zamor (1840-1917), que é pouco conhecido e aparece na sala “Ensino Acadêmico”, onde os trabalhos de nomes famosos como Bernardino de Souza, Clodomiro Amazonas e Rodolpho Bernardelli, estão expostos. Zamor era baiano e frequentou a Académie Julian de Paris no século XIX. Ele praticamente não era mencionado nos livros de história até sua obra começar a ser objeto de estudos a partir dos anos 1980. Dessa maneira, Redondo introduz o retrato do artista “esquecido” numa das principais salas da Pinacoteca.

 

Sob a luz, o preto sobre o preto das serigrafias adquire uma tonalidade meio prateada, meio fantasmagórica, que lembra imagens fotográficas de daguerreótipos. Para que seja possível ver essas fotos é preciso que o visitante movimente o corpo em relação à obra. Ou seja, é preciso fazer certo esforço, olhar com atenção.

 

O percurso da exposição é orientado por um mapa impresso numa publicação que também é utilizada para guardar os cartões que acompanham cada obra. As fragrâncias estão fixadas em um adesivo, então, basta abrir e levar o cartão ao nariz. Dessa maneira, ao longo da visita à mostra, os cheiros e os textos podem ser colecionados pelos visitantes que têm a oportunidade de levar o material para a casa.

 

Por meio de uma pesquisa atenta e uma abordagem inovadora, Laercio Redondo se apropria da dinâmica sinestésica entre visão e olfato para indagar, provocar e tornar visível, as lacunas da história e a normatização dos corpos nos espaços da arte. As intervenções pontuais e, ao mesmo tempo, precisas, no acervo da Pinacoteca, criam um jogo inteligente entre “invisível” e “apagado”, resultando numa exposição provocativa que explora as conexões complexas entre percepção, narrativa e memória.

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Laercio Redondo: Relance

Curadoria de Fernanda Pitta
Pinacoteca de São Paulo
Praça da Luz, 2 – São Paulo
De quarta a segunda-feira, das 10h00 às 17h30 – com permanência até as 18h00
Até 25 de janeiro
Entrada: R$ 6,00 (adultos)
Meia-entrada para estudantes com carteirinha: R$ 3,00
Isentos: menores de 10 anos e maiores de 60
Gratuidade a todos aos sábados
Classificação livre[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/2″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column width=”1/2″][/vc_column][vc_column width=”1/2″][vc_images_carousel images=”3324,3323,3325,3450,3451,3452,3453,3454″ img_size=”full”][/vc_column][/vc_row]