Cosmologia de afetos

[vc_row][vc_column width=”1/6″][/vc_column][vc_column width=”2/3″][vc_empty_space][vc_column_text]Por Patricia Lattavo[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]“No meio do caminho tinha uma pedra”. É com Drummond que a curadora Daniela Name abre o texto de apresentação da exposição Cartografia Poética, de Luiz Alphonsus, em cartaz até o dia 29 de março, no Espaço Cultural BNDES. Nada mais apropriado. A mostra é carregada do simbolismo orgânico que permeia a obra de Drummond. Mineiro como o poeta, Luiz Alphonsus também traz essa marca em seu trabalho: são pedras, paisagens, relevos, terra e fogo, água e ar.  O amplo espaço do salão de exposição, com seu piso em granito preto, ajuda a compor a ambiência necessária à mostra.

 

Na seleção de telas, fotografias, instalações, vídeos e maquetes, é possível observar três movimentos bem marcados na trajetória de Alphonsus: um movimento descendente, em direção ao solo, que busca a terra em suas superfícies e profundezas, uma textura do mundo, como nos trabalhos Brazilian Landscape e Planalto Central.  Um movimento ascendente, quando o artista se volta para os astros, para o cosmos, como em Projetando Galáxias e O lugar onde estamos; e um movimento horizontal, de imanência, nos bares cariocas e nas paisagens urbanas.

 

A curadoria foi capaz de materializar aquilo que poderíamos chamar de – citando André Malraux – o museu imaginário do artista, “uma enigmática libertação do tempo de todas as obras”, fazendo-as conviver com harmonia e complementaridade num mesmo espaço. Apesar da dureza fria dos elementos expostos, a mostra é plena de afetividade, nas projeções de Bares Modernos, no vídeo de Nilton Bravo, pintor de paisagens cariocas em botequins, nas fotografias que registram a participação de amigos e colaboradores na execução de trabalhos como Túnel, onde dois grupos são formados e enquanto um deles atravessa o túnel, esse corte na cidade, o outro deve fazer a travessia por cima da montanha.

 

Um dos melhores momentos se dá com a série de fotografias que compõe a obra Negativo/Positivo. A sequência exibe a passagem gradual do dia para a noite. Quando ainda é dia, vemos apenas o buraco aberto na areia, conforme anoitece, jorra do buraco um fogo nuclear, aquele que vem do centro da Terra.  Como sugere Drummond no poema A Máquina do Mundo, no momento em que a escuridão domina é que se abre a possibilidade de visão daquilo que estava invisível. O que era um buraco escuro torna-se então uma abertura de luz, uma passagem.

 

Percorre-se a exposição num movimento fluido, onde uma obra parece dar as mãos à próxima numa espécie de corrente, formando uma constelação própria. O único momento em que essa fluidez parece perder ritmo é com Supernova, trabalho composto por um objeto retangular, de metal, apoiado sobre uma caixa de madeira posicionada diante de duas fotografias com molduras e intervenções em chumbo. Se o objeto de metal mantém o caráter enigmático que lhe convém, as fotografias na parede, emolduradas e atravessadas pelo chumbo, parecem muito ornamentais ou até mesmo literais, destoando da afetuosa crueza presente nas obras que as ladeiam. Em seguida temos a instalação Black Hole, uma grande pedra retangular – uma lápide, talvez? – apoiada sobre uma almofada preta que contrasta com as quatro telas azuis que a sucedem: 17 Bilhões, Voo Flight de Kandisnky, Perpetuação da Linguagem e Criação da Linguagem. São produções mais recentes do artista, com forte presença de formas geométricas, que apesar de manterem a temática cosmológica presente em trabalhos anteriores, nos transportam para um outro lugar, com o azul intenso ativando nossas pupilas depois de toda a série de obras em tons de cinza e chumbo.

 

Merece atenção ainda o penetrável Ambiente III, por sua presença arquitetônica e um formato interior que, coincidentemente ou não, lembra o de uma barragem. Essa peça foi destruída pelo incêndio do Museu de Arte Moderna do Rio, em 1978, e remontada a partir de maquete e projeto originais. Destaque também para a instalação Conceitual Caboclo, exposta ao lado da tela Zona Sul/Baixa Flu – As balas que restaram do último assalto, que compõe junto com as projeções de Bares Cariocas o momento mais urbano da exposição. Descortinando o Rio de Janeiro da violência mas também da boemia dos antigos “pés-sujos”, o artista nos lembra de um tempo em que, entre uma cerveja e um ovo colorido, jogava-se sinuca e falava-se da vida com a espetacular paisagem da cidade ao fundo.

 

Toda essa constelação de obras orbita ao redor da instalação Dedicado à paisagem de nosso planeta (1971), que ocupa todo o centro do salão. Trabalho apresentado pela primeira vez na XI Bienal de São Paulo, é formado por placas de grama sintética que criam uma espécie de corredor verde interrompido ou cortado, ou simplesmente afetado, por uma faixa branca de tecido, faixa essa também presente na fotografia 60 White Meters, onde aparece como um rasgo de intervenção artística na paisagem e como marca da potência criadora do homem. As extremidades da longa instalação, início e fim, são limitadas por barreiras de pedras, como se, subvertendo a repetida máxima bíblica, Alphonsus quisesse decretar: “das pedras viemos, às pedras voltaremos”.

 

Para os que apreciam essa geração de artistas que contribuiu para pavimentar o caminho da arte contemporânea brasileira, a exposição “Cartografia Poética”, com um recorte sincero da trajetória de Luiz Alphonsus, oferece boas possibilidades de reflexão diante do caótico cenário cultural e social que se apresenta.

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Cartografia Poética

Luiz Alphonsus
Curadoria de Daniela Name
Espaço Cultural BNDES
Av. República do Chile, 100 – Centro – Rio de Janeiro
De segunda a sexta, das 10h às 19h
Até 29 de março
Entrada gratuita
Classificação livre[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/2″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column width=”1/2″][/vc_column][vc_column width=”1/2″][vc_images_carousel images=”3340,3341,3342,3351,3344,3349,3350,3353,3345,3339,3346,3348,3343″ img_size=”full”][/vc_column][/vc_row]