[vc_row][vc_column width=”1/6″][/vc_column][vc_column width=”2/3″][vc_column_text]Por Valesca Veiga[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Uma série de questões sobre a complexa formação social brasileira tem emergido na arte contemporânea recente, dando protagonismo a revisitações históricas de extrema relevância e urgência para a compreensão dos diversos enfretamentos de pensamento na atualidade. O artista Tiago Sant’Ana tem se dedicado a investigações das marcas profundas que o processo de colonização e as contradições do projeto abolicionista imprimiram na constituição de nossa sociedade. A partir de trabalhos que resgatam a memória da exploração da cana de açúcar no Nordeste, Tiago desenvolve produção poética que se propõe a revelar a história pelo avesso, contrapondo as imagens de alvura e doçura do açúcar, uma das principais moedas do imperialismo europeu, ao lado sombrio da escravidão e da violência colonial. Em sua individual, Baixa dos Sapateiros, na galeria Simone Cadinelli, o artista apresenta nova pesquisa que remete à conotação simbólica dos sapatos como representação de cidadania após a abolição.
Quando a escravidão foi juridicamente proibida e milhões de pessoas negras puderam adquirir uma certa dimensão de dignidade, os sapatos passaram a representar um símbolo de liberdade e “civilidade”. A Baixa dos Sapateiros, região de comércio popular de Salvador, passa a ser frequentada por aqueles a quem não era permitido, até então, o uso de calçados. A imagem de um par de sapatos de açúcar erguidos pelas mãos de um corpo submerso no rio, um dos registros da performance Sapatos de Açúcar, na região do Recôncavo Baiano, está impregnada de simbolismos e sintetiza a convergência das pesquisas de Tiago. Em águas próximas a ruínas de antigos engenhos de açúcar, a escultura dos sapatos opera paradoxalmente na possibilidade de se dissolver a qualquer momento, portanto frágil e circunstancial, ao mesmo tempo que é um objeto físico que representava para os negros o troféu da libertação, ainda que incompleta.
Na série de fotografias Refino#5, o açúcar cobre as imagens extraídas de pinturas de Debret e Rugendas deixando apenas os pés descalços à mostra. Uma referência aos questionamentos sobre a presença do negro na arte oitocentista, que apesar de explorar uma visão idílica e europeia da relação entre senhores e escravos, traz importantes registros iconográficos como os pés descalços. No vídeo Ao rés do chão, Tiago discute outra dimensão perturbadora em relação ao objeto de desejo do vestuário patriarcal: por não estarem acostumados a terem os pés limitados e apertados, os ex-escravos continuavam descalços e usavam os sapatos a tiracolo, como se fossem bolsas, ampliando o significado da imagem como distinção social. Neste conjunto de trabalhos recentes, que também inclui esculturas, instalação, objetos e fotografias, o artista propõe a desmistificação da ideia de que a proteção jurídica abolicionista proporcionaria igualdade e reparação aos negros, questão viva até os dias de hoje.
Em 1883, Joaquim Nabuco escreveria sobre a iminente Abolição da Escravatura: “Essa obra – de reparação, vergonha ou arrependimento, como a queiram chamar – da emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do abolicionismo. Além dessa, há outra maior do futuro: a de apagar todos os efeitos de um regime que, há três séculos, é uma escola de desmoralização e inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a casta dos senhores […]”. Assim como Nabuco, Tiago vê a reforma social como urgente e inadiável. Unindo política e estética, faz de sua poética um movimento de expressão libertadora e reflexiva.
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Baixa dos Sapateiros
Tiago Sant’Ana
Curadoria de Clarissa Diniz
Simone Cadinelli Arte Contemporânea
Rua Aníbal de Mendonça, 171 – Ipanema – Rio de Janeiro
De segunda a sexta, das 10h às 19h
Sábados, das 11h às 15h
Até 13 de fevereiro
Entrada gratuita
Classificação livre
www.simonecadinelli.com[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/2″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column width=”1/2″][/vc_column][vc_column width=”1/2″][vc_empty_space][vc_images_carousel images=”3009,3004,3011,3008,3006,3005″ img_size=”full”][/vc_column][/vc_row]



