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Uma mulher de frente para o mundo

[vc_row][vc_column width=”1/6″][/vc_column][vc_column width=”2/3″][vc_column_text]Por Ludimilla Fonseca[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Uma das mais influentes artistas do século XX, Chantal Akerman foi, ao longo de sua carreira, ampliando seu repertório do cinema para as videoinstalações, dando nova dimensão ao corpo de sua obra. Tendo passado por importantes mostras internacionais, como a Documenta de Kassel e a Bienal de Veneza, parte de sua produção instalativa chega ao Brasil e fica em cartaz no Oi Futuro Flamengo até 27 de janeiro.

A exposição Chantal Akerman: Tempo expandido tem curadoria de Evangelina Seiler, com consultoria de Claire Atherton (editora que colaborou por mais de 30 anos com a cineasta belga). O título da mostra condensa o extrato conceitual de Akerman e indica um tipo de experiência mais estendida na fruição de suas obras. Essa proposição de vivência temporal era amplamente explorada em seus filmes, a partir da longa duração dos planos, da opção por poucos cortes e de uma lógica radical de montagem.

Esse experimentalismo se tornou ainda mais pulsante ao migrar para os espaços expositivos, colocando os espectadores em uma posição diferente. Em Tempo Expandido, são apresentadas quatro instalações que têm entre 10 e 34 minutos. Akerman não utiliza o tempo cinematográfico para narrar, conduzindo-nos de um começo para um final: o durante é muito mais importante. O durante é a manifestação do tempo. Então, essa é uma exposição para ser vivida sem pressa.

A sala que abre a mostra reúne duas obras nunca antes expostas em conjunto: O quarto  – instalação de 2012, produzida a partir do filme La Chambre, de 1972 – e Anoitecer em Shanghai, de 2009. A primeira é uma tomada panorâmica que apresenta um quarto. A câmera se movimenta lentamente, descrevendo cada detalhe estático do cômodo, até que revela a figura da própria Akerman deitada na cama. Muitas vezes entendido como uma natureza-morta, devido à obsessão descritiva e ao impressionante apelo pictórico da cena, este filme pode (e deve) ser pensado também como um autorretrato: as sequências de Chantal são subjetivas e não documentais.

Anoitecer em Shanghai é caracterizada pelo uso da câmera estática e frontal para capturar o ambiente do porto chinês. O horizonte, que escurece em tempo real, é habitado pelos anúncios luminosos gigantes nas fachadas dos arranha-céus, pelos passantes e pelos barcos. Ao aproximar estes dois trabalhos, a curadoria constrói uma relação dialética entre o anonimato na megalópole chinesa e a individualidade no interior do quarto. Se, por um lado faz sentido pensar que ambas as instalações, a partir de seu rigor formal e supressão narrativa, falam da mesma solidão e do passar incontrolável das horas, por outro, estes filmes ainda parecem distantes. Entre o dia e a noite, a película e o digital, o ruído da cidade e o quarto silencioso, o começo e o final da carreira de Akerman, algo acaba ficando em suspensão nesta primeira sala da mostra.

O andar seguinte da exposição é, sem dúvida, o mais envolvente. Nele, está Verão maníaco, de 2009, uma instalação de projeção múltipla, na qual as imagens de um vídeo central são isoladas, modificadas e repetidas, em projeções adjacentes. Mais uma vez, a câmera está parada e posicionada de frente. Mas agora, estamos diante da janela do apartamento de Akerman, em Paris. Trata-se de um registro da vida lá fora e também da rotina caseira da cineasta. Nesse ponto, vale sublinhar outro dado recorrente na sua obra: o espaço doméstico. Parece que, muitas vezes, o lar é sinônimo de confinamento. Já os vídeos adjacentes têm uma atmosfera abstrata: são repetições alteradas daquilo que vemos na projeção central. Entendidas como “pós-imagens”, isto é, memórias, elas constituem uma digressão temporal bastante onírica.

Apenas uma parede separa Verão maníaco da obra seguinte Minha mãe ri, prelúdio, de 2012. Neste vídeo, Akerman lê trechos da sua autobiografia, constituindo uma espécie de registro de performance em que a imagem se condensa em som. O tom memorial e totalmente honesto é hipnotizante. Nos 27 minutos de filmagem, Chantal está sentada em uma sala muito escura e apenas um fraco abajur possibilita a leitura da pilha de papéis à sua frente. A pequena projeção não se distingue da parede preta, de modo que a figura da cineasta parece uma memória distante.

Tempo expandido se encerra com No espelho – instalação criada em 2007 e produzida a partir de um trecho do filme homônimo de 1972 ­– na qual uma mulher, de costas para o público, observa seu corpo no espelho. Só conhecemos essa personagem pelo seu reflexo. Enquanto analisa cada parte do seu corpo, ela o descreve: “sou pálida, meu pescoço é longo… e, além de tudo, meu traseiro é gordo”. Embora seu conteúdo continue potente, a instalação tem uma atmosfera um pouco datada, destoando das demais obras apresentadas na exposição.

Em suma, Akerman é uma mestra do enquadramento. Em suas videoinstalações estamos diante de extratos visuais cuja fluidez interna é independente e viva. Mas toda essa dinâmica é fixada em uma moldura estática do mundo lá de fora. Em outras palavras, o mundo é de uma complexidade sempre extenuante. A ausência de cortes nos seus filmes denuncia a angústia do caráter ininterrupto e incontrolável do tempo. E é preciso senti-lo. A inteligência fílmica de Chantal, ao trabalhar conscientemente cada segundo como uma sucessão precisa de 24 quadros parados, é muito mais que metalinguagem: é uma revelação.

A frontalidade da câmera coloca o espectador em estado de atenção. E como tudo é sempre visto de frente, a opção do contraplano está negada. Desse modo, entre a câmera e a cena, estamos sozinhos: a impossibilidade do contraplano afirma a participação constante do espectador. Então, assim como sua câmera, Akerman é uma mulher que encara o mundo de frente e convoca seu público a fazer o mesmo. A questão da frontalidade de seus planos é sobre uma maneira de estar no mundo. Há uma grande carga de honestidade e originalidade em todos os seus trabalhos, que faz cada segundo da fruição de suas obras durar exatamente o necessário.

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Chantal Akerman: tempo expandido

Chantal Akerman
Curadoria de Evangelina Seiler
Oi Futuro
Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo
De terça a domingo, das 11h às 20h
Até 27 de janeiro
Entrada Franca
Classificação livre[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/2″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column width=”1/2″][/vc_column][vc_column width=”1/2″][vc_empty_space][vc_images_carousel images=”3160,3159,3158,3156″ img_size=”full”][/vc_column][/vc_row]