[vc_row][vc_column width=”1/6″][/vc_column][vc_column width=”2/3″][vc_column_text]Por Valesca Veiga[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Mais conhecido por composições de grandes murais em azulejaria, Athos Bulcão se destacou por integrar arte e arquitetura em importantes projetos urbanos e coleções particulares pelo Brasil e o mundo. Para a comemoração de centenário de seu nascimento, a retrospectiva itinerante 100 anos de Athos Bulcão apresenta mais de 300 trabalhos produzidos de 1940 até o ano de sua morte, em 2008, que surpreendem tanto pela diversidade poética quanto técnica. Fotomontagens, pinturas, desenhos, figurinos, capas de discos e livros, objetos, esculturas e intervenções arquitetônicas, além dos icônicos painéis de azulejo, contextualizam a trajetória criativa de Bulcão desde sua participação no projeto modernista brasileiro até a atualidade de sua obra, que ainda inspira artistas contemporâneos.
Ocupando o segundo andar do Centro Cultural do Banco do Brasil Rio, a exposição está dividida em núcleos que combinam viés cronológico e agrupamentos por suportes e técnicas utilizadas nos trabalhos. Chegando ao foyer do prédio histórico, o espectador já se defronta com um cubo de 9m2 que apresenta quatro painéis de azulejos criados para instituições públicas, além de um grande mural com a combinação geométrica produzida para o Instituto Rio Branco. Bulcão trabalhou em grandes projetos com Oscar Niemeyer, tanto na construção de Brasília, como em outros estados brasileiros e no exterior. Na azulejaria, o artista combinava elementos abstratos, em sua maioria, com a arquitetura dos espaços, em equilíbrio constante com a paisagem e a luminosidade solar. Mais tarde, colaborou com o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, em outras intervenções como os relevos e elementos escultóricos para a Rede de Hospitais Sarah Kubistchek, alguns presentes na mostra. Em uma das salas é possível ver vários destes projetos, além de estudos de cor, forma e espaço.
Na azulejaria, o artista combinava elementos abstratos com a arquitetura dos espaços, em equilíbrio constante com a paisagem e a luminosidade solar
O núcleo destinado às fotomontagens é um dos mais interessantes desta retrospectiva. Nele, o público tem contato tanto com a impressão final do conjunto de fotografias, como também pode observar a técnica experimental de colagem e montagem através dos originais. Para o artista, as fotomontagens eram exercícios de enquadramento com o movimento do cinema, como pequenos filmes montados a partir de composições de cenário e figuras que dialogavam com o surrealismo. Por estes trabalhos, pode se perceber como Athos Bulcão representou um marco de transição entre uma produção moderna e o experimentalismo contemporâneo.
Esta questão também se coloca em relação a algumas pinturas figurativas que remetem a certa proximidade com Portinari, de quem foi assistente na década de 1940. É o caso da série Sem Título, em que meninos empinam pássaros como se fossem pipas, ignorando noções de perspectiva e referências de teto e chão – as figuras parecem flutuar desordenadamente no espaço, como também acontece na série Carnaval. A temática imaginativa de composições surreais também perpassa a série É tudo falso, onde máscaras de “matéria estranha” simulando fetos se situam entre a pintura e a tridimensionalidade de um objeto. Bulcão brinca com questões como o próprio papel da obra e as relações entre autenticidade e autoria: “A obra de arte é uma ilusão. Primeiro porque não serve para absolutamente nada, é o lado fascinante. Depois como dizer se é uma obra verdadeira ou se é falsa?”.
Por estes trabalhos, pode se perceber como Athos Bulcão representou um marco de transição entre uma produção moderna e o experimentalismo contemporâneo
Entre as boas escolhas curatoriais da exposição está a sala com produções contemporâneas de artistas que reconhecem, de alguma forma, a influência poética de Athos Bulcão em seus trabalhos. Mais informações sobre os diversos núcleos da mostra fazem falta ao espectador pela diversidade de interpenetrações singulares entre as obras. Os croquis e figurinos para o teatro, os estudos para lenços e as pinturas abstratas e sacras acrescentam à retrospectiva a pluralidade criativa de um artista que trafegou com muita naturalidade pelos vários caminhos conceituais e materiais das artes plásticas. Sem dúvida, uma importante referência para o entendimento do contexto histórico da arte brasileira no século XX.
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100 anos de Athos Bulcão
Curadoria de André Severo e Marília Panitz
CCBB Rio
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro
De terça a domingo, das 9h às 21h
Até 28 de janeiro
Entrada gratuita
Classificação livre
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