Mulheres na Coleção MAR é uma exposição coletiva em sentido amplo. O recorte feito no acervo do Museu de Arte do Rio selecionou obras produzidas exclusivamente por mulheres, englobando mais de 150 artistas históricas e contemporâneas, brasileiras e estrangeiras. O ponto irradiador do projeto é a expansão da noção de coletividade para o processo curatorial, no qual, pela primeira vez na história do museu, a curadoria foi feita de maneira colaborativa, envolvendo profissionais femininas de todos os setores da instituição, entre seguranças, recepcionistas, produtoras, advogadas, designers, museólogas e gestoras.
Em uma série de encontros, as funcionárias trocaram experiências pessoais e conversaram sobre as múltiplas representações da mulher na sociedade. Assim, exercícios experimentais de curadoria foram desenvolvidos, ampliando a seleção de obras para além dos tradicionais conceitos expositivos e historiográficos, englobando dimensões subjetivas, desejos e trocas de saberes. Inclusive, faz parte da exposição um vídeo sobre este processo, com imagens dos encontros e depoimentos das profissionais.
Pela primeira vez na história do museu, a curadoria foi feita de maneira colaborativa, envolvendo profissionais femininas de todos os setores da instituição, entre seguranças, recepcionistas, produtoras, advogadas, designers, museólogas e gestoras.
Mulheres na Coleção MAR apresenta dezenas de obras, entre pinturas, gravuras, fotografias, esculturas e vídeos, orientadas em torno de cinco núcleos expositivos. O primeiro deles é “Retrato/Representação”, que desloca o estereótipo da mulher como objeto de desejo representado por artistas homens, para imagens auto referenciais, que vão desde o retrato clássico até composições contemporâneas. Brígida Baltar, por exemplo, apresenta uma subjetivação do corpo feminino doente e/ou violentado a partir de desenhos vermelhos em fundo branco. O núcleo seguinte, “Abstrações”, tem representantes do construtivismo brasileiro, além de um grupo de gravuras e trabalhos mais recentes, como de Beatriz Milhazes. Destaque para a produção de Mira Schendel, que foi a primeira mulher a integrar o acervo do MAR.
“Poéticas” reúne artistas que investigam a linguagem escrita e suas extrapolações. Grandes nomes como Lenora de Barros, Neide Sá, Anna Maria Maiolino e Louise Bourgeois, fazem do menor núcleo da exposição, uma reunião potente de trabalhos. Já “Corpo Político” chama atenção para aquilo que nos é mais pessoal e, ao mesmo tempo, nosso maior veículo de empoderamento e transformação social. Obras tridimensionais de Cristina Salgado, Maria Martins e Maria Nepomuceno dão vitalidade ao núcleo.
“Cidade e Paisagem” é uma oportunidade ímpar de ver pintoras do século XIX e começo do XX se apropriando dos cenários urbanos, seja do ponto de vista da paisagem, como na obra de Magdalena del Faro, seja do ponto de vista doméstico, como em Amélia da Silva Costa. O grupo seguinte é “Geografias Transversais”: mais contemporâneo, aponta para as mulheres ocupando os espaços públicos e para a problematização das suas relações com a natureza.
Expograficamente, os núcleos são organizados a partir de aproximações formais e temáticas, de modo que não geram tensões entre si ou entre os trabalhos. Sendo assim, a exposição se constitui como um grande “salão de mulheres”, cuja força reside justamente no processo experimental de curadoria horizontalizada e no recorte autônomo e corajoso da coleção.
Esta revisão do acervo levou à constatação da disparidade entre gêneros que caracteriza a maioria esmagadora das coleções institucionais no país e no mundo
Conceitualmente, a mostra cumpre um papel fundamental que é o entendimento da pluralidade da produção artística feita por mulheres e que tenta descolar das obras o rótulo de “arte feminina” ou “arte feminista”. Não há um tipo de mulher artista, mas uma diversidade de mulheres artistas. E esta é uma exposição que se revela atenta às diferenças e lacunas, sejam geográficas, geracionais, estilísticas ou reconhecimento, transparecendo a noção de que não há uma essência universal do feminino.
Além disso, certamente, esta revisão do acervo levou à constatação da disparidade entre gêneros que caracteriza a maioria esmagadora das coleções institucionais no país e no mundo. Este é um exercício incômodo, porém necessário, que desestabiliza o cânone patriarcal da arte e abre para mudanças nas políticas de aquisição e nos critérios das pesquisas que são realizadas no âmbito das coleções. Este mesmo exercício também aponta para a necessidade de estabelecer relações de trabalho mais horizontais e equânimes nas instituições artísticas. Dado que, independentemente de cargos ou linguagens, as mulheres estão sempre lidando com a desigualdade no sistema de arte.
Vale contextualizar esta como uma exposição que segue um fluxo recente de abertura para a questão feminina no cenário artístico nacional. Para citar apenas alguns projetos deste ano, a Pinacoteca recebeu Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana, 1960-1985 e o Centro Cultural São Paulo apresentou a mostra Arte Tem Gênero?. Enquanto o MAC Niterói sediou Anna Bella & Lygia & Mira & Wanda, além de uma grande individual de Sônia Gomes. Mas ainda é pouco. Por isso, Mulheres na Coleção MAR deve ser entendida como parte de um princípio de transformação e não como um fim em si mesma.
Mulheres na Coleção MAR
Museu de Arte do Rio – MAR
Praça Mauá, 5 – Centro – Rio de Janeiro
De terça a domingo, das 10h às 17h
Até junho de 2019
Entrada: R$ 20,00 – Meia-entrada: R$ 10,00 (gratuidade às terças)
Classificação livre










