“Acredite ou não, eu sei desenhar”

[vc_row][vc_column width=”1/6″][/vc_column][vc_column width=”2/3″][vc_column_text]Por Valesca Veiga[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Considerado um dos mais emblemáticos artistas da segunda metade do século XX, o norte-americano Jean-Michel Basquiat é um dos expoentes da efervescência multicultural da cidade de Nova York dos anos 1970 e 1980. Do laboratório das ruas, de onde borbulhavam os primórdios dos movimentos hip-hop e rap, e da visualidade do grafite, a obra de Basquiat foi associada ao neoexpressionismo por suas pinceladas rudes e coloridas, mas o caráter realmente inovador do artista estava na mistura de palavras, imagens e objetos, consolidando-o como uma das principais referências da colagem contemporânea. Até o dia 07 de janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, uma parte significativa de seus trabalhos, proveniente da coleção Mugrabi, pode ser vista na maior exposição do artista já realizada na América Latina.

 

Ainda muito jovem, Basquiat causou curiosidade por suas frases enigmáticas e poéticas grafitadas em fachadas e muros de Lower Manhatan, sob o pseudônimo SAMO. As palavras, posteriormente incorporadas às imagens, construiriam um profícuo diálogo político com questões muito caras à época, como a institucionalização da arte, a decadência social e urbana das metrópoles, e a discriminação racial. Em um meio onde predominavam artistas brancos, Basquiat buscava uma conscientização contra a exclusão e o preconceito na sociedade e sobre a falta de diversidade no universo das artes visuais, tornando o afro-americano o grande protagonista de suas pinturas. Além disso, sua produção inovadora repercutiu rapidamente no meio de arte como alternativa ao Minimalismo e à Arte Conceitual dos anos 1960 e 1970, mais intelectualizadas e distantes do expectador.

 

As palavras, posteriormente incorporadas às imagens, construiriam um profícuo diálogo político com questões muito caras à época, como a institucionalização da arte, a decadência social e urbana das metrópoles, e a discriminação racial

 

Admirador de Leonardo da Vinci, Jean Dubuffet, Robert Rauschenberg e Andy Warhol, entre outros, o artista incorporou em seu trabalho referências eruditas extraídas tanto de livros de anatomia, ciências e história da arte, quanto da música – o jazz foi uma influência significativa em sua obra, além de clássicos como Bach e Ravel. Ao mesmo tempo, inseria em sua pintura super-heróis de revistas em quadrinhos e personagens de desenhos animados infantis da TV, e era influenciado pelos novos ritmos musicais que ecoavam das ruas. O interesse de Basquiat transitava pelo choque entre padrões eruditos e populares, construindo uma produção que remete ao sincretismo e à remixagem cultural. De certa forma, esse foi o entusiasmo que também moveu Wahrol nos anos 1960, quando se aproximou de temas populares e se utilizou da combinação texto-imagem de anúncios, manchetes de jornal e marcas de produto. Uma das salas do CCBB é dedicada a trabalhos da parceria entre Basquiat e Warhol, que gerou mais de 100 pinturas em grandes formatos. Logo após a primeira exposição de trabalhos da dupla, em 1985, os artistas receberam uma avalanche de críticas e a parceria foi desfeita. Wahrol faleceu em 1987 e Basquiat, no ano seguinte, aos 27 anos, por overdose de drogas.

 

O desenho foi fundamental para sua obra, que, mesmo não tendo uma formação artística tradicional, dizia desenhar desde a infância. Em muitas obras, desenho e pintura têm o mesmo peso para o artista. Basquiat construiu uma lógica formal que combinava técnicas de colagem modernista em desenhos, pinturas e objetos com o ritmo da mixagem de discos de hip-hop. A mistura de palavras e imagens parecem invocar o som das ruas acompanhadas de técnicas de grafite, aquarela, xerox, óleo e acrílica sobre tela. “Acredite ou não, eu sei desenhar. Mas luto contra isso o tempo todo”, afirmaria em uma entrevista, resumindo em poucas palavras a ampla discussão em torno da artesania clássica, do “saber fazer”, uma das principais críticas do público à arte contemporânea. A obra de Basquiat articulava sua visão de mundo representando a liberdade do artista contemporâneo de criar o que e como quiser: podendo escolher pelo caminho da tradição ou o diametralmente oposto; subverter mensagens, meios e processos; criar a partir de apropriações poéticas de “coisas”, lugares e movimentos; e até dar significâncias outras a pessoas e seus pensamentos. Assim aconteceu na história das rupturas de padrões estabelecidos pelo senso comum nos grandes movimentos culturais, artísticos e musicais. Assim aconteceu na história das vanguardas. E assim também aconteceu na rápida história de Jean-Michel Basquiat na arte.

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Jean-Michel Basquiat

Curadoria de Pieter Tjabbes
CCBB RJ
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro
De quarta a segunda, das 9h às 21h
Até 07 de janeiro de 2019
Entrada gratuita
Classificação livre[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/2″][vc_empty_space][vc_images_carousel images=”2262,2243,2244,2245,2246,2260,2259″ img_size=”full”][/vc_column][/vc_row]