Por Valesca Veiga
Um dos artistas contemporâneos mais significativos da história da arte brasileira, Antonio Dias, falecido recentemente, recebe retrospectiva do MAM Rio com quase 60 obras pertencentes às coleções do museu. Os trabalhos recebem montagem com certa sequência cronológica, sendo possível acompanhar o percurso poético do artista, desde as pinturas iniciais e relevos em madeira da década de 1960, quando frequentava o ateliê do gravurista Oswaldo Goeldi (1895-1961), até produções dos anos 1980.
Ainda muito jovem, Dias tem sua primeira individual, em 1962, e participa da mostra Opinião 65 (1965), marco da tendência do novo realismo nas artes visuais brasileiras. Ao lado de nomes como Carlos Vergara, Rubens Gerchman, Ivan Serpa e Waldemar Cordeiro, entre outros, a exposição revelava um panorama dos diferentes caminhos da retomada da linguagem figurativa. Nessa época, criava formas que rompiam com os limites do quadro, passando a ser objeto tridimensional, incorporando outros materiais à pintura, como nas obras Um pouco de prata pra você (1965) e Na escuridão (1967).
No mesmo ano de 1965, o artista também participa da 4a Bienal de Paris e permanece na Europa. A partir de 1968, é contratato pelo Studio Marconi, de Milão, onde tem contato com a Arte Povera. Uma mudança radical ocorre em seu processo criativo quando se volta à prática conceitual, incorporando conteúdo textual como elemento gráfico nos trabalhos, abandonando a figuração. O Ilusionista (1968) e Anywhere is my Land (1974) são exemplos de obras em que usa composições que aparentam alguma proximidade com imagens espaciais, mas que seguem uma lógica na estrutura modular como um jogo, propondo a participação do espectador. Desenhos, fotografia e instalação também fazem parte da exposição Antonio Dias: o ilusionista.
Apesar não ter se vinculado a nenhum movimento artístico, a fase inicial de sua obra incorpora aspectos do Construtivismo, principalmente do que era feito no Brasil. As produções sempre se estruturam no espaço, buscando a tridimensionalidade, além de partirem da grade construtiva, onde a figuração é encenada. As cores, com predominância do preto, vermelho e amarelo, e as características gráficas do desenho e da pintura também remetem à corrente russa e ao De Stijl.
O artista foi associado à Pop Art, movimento americano do pós-Segunda Guerra Mundial que emergiu como crítica à sociedade de consumo, e à Art Language, relacionado à arte conceitual que propunha a desmaterialização do objeto e a materialização de teorias da arte. Apesar de ter transitado por meandros destes territórios, Antonio Dias manteve características muito próprias que não se ajustavam a rotulações. A ironia e o engajamento político e social da Nova Figuração não coincidiam com os conceitos críticos da sociedade de consumo da Pop, nem a apropriação de elementos prontos. Por outro lado, os trabalhos baseados em textos não renunciavam ao acontecimento plástico, mantinham a pintura, o desenho e os componentes gráficos em diálogo semântico com o receptor. O título da exposição é bem condizente com o aparente e ilusório enquadramento do artista em padrões teóricos da arte, mas que, na verdade, produziu obra inovadora, transpondo contornos.





Antonio Dias: o ilusionista
Curadoria de Fernanda Lopes e Fernando Cocchiarale
Museu de Arte Moderna – MAM Rio
Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo – Rio de Janeiro
De terça a sexta-feira, das 12h às 18h
Sábado e domingo, das 11h às 18h
Até 11 de novembro de 2018
Entrada: R$14 (inteira)
Classificação livre



