Todo mundo grita e ninguém se ouve

[vc_row][vc_column width=”1/6″][/vc_column][vc_column width=”2/3″][vc_column_text]Por Valesca Veiga[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Desde 2014, Rodrigo Braga desenvolve pesquisa sobre o solo do nordeste brasileiro, relacionando suas obras às questões geológicas e às profundezas da terra. Pedras, rochas e fósseis fazem parte das composições poéticas de importantes produções do artista, como Mar Interior (Mer Intérieure), de 2016, site specific montado entre o Museu de Arte Moderna de Paris e o Palais de Tokyo. Para este trabalho, Rodrigo estendeu sua investigação ao território francês, reunindo toneladas de rochas calcárias com fósseis incrustados, que ocuparam uma área de aproximadamente 1400 m2. Agora, em sua nova individual, pedras e minérios voltam à cena na instalação inédita, criada especialmente para Os olhos cheios de terra, em cartaz na galeria Anita Schwartz.

 

A partir de uma imersão de quinze dias no local da exposição, como uma residência informal, e fortemente impactado pela polarização extrema que domina o debate político no país, Rodrigo relata que produziu esses últimos trabalhos sob o calor das emoções e reflexões dos últimos quatro anos, num cenário em que todo mundo grita e ninguém se ouve. Serigrafias, fotografias, desenhos, vídeo, objetos e texto compõem o espaço instalativo que ocupa o andar térreo do prédio da Gávea. Nesse ambiente, realizou ações performáticas que foram fotografadas e expostas no segundo andar, ora com o corpo nu coberto de carvão em fundo preto, ora pintado de cal em fundo branco. A nudez, aqui, está representada como uma experiência corporal sensível em relação à matéria.

 

 

A partir de uma imersão de quinze dias no local da exposição, como uma residência informal, e fortemente impactado pela polarização extrema que domina o debate político no país, Rodrigo relata que produziu esses últimos trabalhos sob o calor das emoções e reflexões dos últimos quatro anos, num cenário em que todos gritam e ninguém se ouve.

 

 

O processo criativo do artista teve como ponto de partida a música Trastevere (1975), de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento, que fala sobre um pai cego conversando com o filho surdo. A perda de sentido e a falta de diálogo estão metaforicamente representadas nas cores e nos materiais das obras, transbordando o questionamento sobre opostos. Há pouca variação de cor nos trabalhos, uma predominância por contrastes entre preto, branco e vermelho, este derivado do próprio sangue do artista, extraído por uma enfermeira e diluído em água para a composição dos diferentes tons. A fotografia da mão coberta de carvão, com o contorno de uma faixa sanguínea, impacta o espectador e se torna ainda mais emblemática por ter sido finalizada horas antes do recente incêndio que devastou o Museu Nacional. As mãos aparecem em outros momentos da mostra, desmembradas do corpo, manifestando a percepção de fragmentação do ser humano ao perder suas certezas, absorvido pela atmosfera conflituosa da realidade.

 

 

A fotografia da mão coberta de carvão, com o contorno de uma faixa sanguínea, impacta o espectador e se torna ainda mais emblemática por ter sido finalizada horas antes do recente incêndio que devastou o Museu Nacional.

 

 

A aridez do solo e a aspereza das rochas brutas parecem permear o campo simbólico dos trabalhos do artista, sempre questionando o papel do homem em relação a ele mesmo e ao outro, e sua conexão com a natureza. A própria presença dos minerais denota essa ligação do homem com sua origem, apesar do trabalho em questão estar imerso em ambiente fechado, diferentemente de outras obras e ações que Rodrigo realiza ao ar livre. Nesta exposição, há ainda um componente místico nos “olhos” com luzes espalhados pelo chão, nos cristais que habitam os cantos da instalação, na cal que purifica. Mesmo que não intencional, há certa ligação com o absoluto, uma intenção de transcender os limites do mundo empírico que oprime e sufoca. Os olhos cheios de terra é um grito de angústia rompendo os limites do “cubo” e ecoando pelos ouvidos surdos da cidade.

 

[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/6″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column width=”1/2″][vc_column_text]Os olhos cheios de terra

Rodrigo Braga

Anita Schwartz Galeria de Arte
Rua José Roberto Macedo Soares, 30 – Gávea – Rio de Janeiro
De segunda a sexta-feira, das 10h às 20h
Sábado, das 12h às 18h
Até 03 de novembro de 2018
Entrada gratuita
Classificação livre*
*há fotos de nudez no segundo andar, crianças devem estar acompanhadas dos pais

www.anitaschwartz.com.br[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/2″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column width=”1/4″][/vc_column][vc_column width=”3/4″][vc_images_carousel images=”1915,1916,1919,1924,1920,1922,1926,1917,1918″ img_size=”full”][/vc_column][/vc_row]