Por Valesca Veiga
Um dos mais emblemáticos artistas brasileiros, Tunga considerava a arte um campo multidisciplinar, onde filosofia, poesia, psicanálise e ciências naturais estavam associadas à produção visual. Investigações que transbordavam do imaginário onírico e simbólico pelas mais variadas linguagens, como escultura, desenho, instalação, performance, vídeo e filme. “O esforço da arte contemporânea – e meu também – é reunir as mais diversas formas de conhecimento e posicionar a poesia como o eixo central”, elucidava o artista, depreendendo ressonâncias entre os diversos âmbitos do saber.
Primeiro contemporâneo a expor na famosa pirâmide do Museu do Louvre, em 2005, com a obra À Luz de Dois Mundos, Tunga é mais conhecido por suas instalações e esculturas, como as expostas nas galerias permanentes True Rouge e Psicoativa do Instituto Inhotim. O público que visitar a primeira individual na cidade do Rio após 2016 – quando de sua morte – não encontrará uma retrospectiva de suas obras mais populares. A exposição Tunga: o rigor da distração, que ocupa o segundo andar do Museu de Arte do Rio, resgata o desenho como fio condutor de sua construção poética, além de um conjunto de fotografias de performances, filmes, vídeos de entrevistas e algumas esculturas.
O universo onírico explorado pelo artista faz-se evidente nas narrativas fantásticas que permeiam as camadas de suas produções. Nos registros da performance Xifópagas Capilares, de 1984, lenda mitológica das gêmeas nórdicas unidas por longos cabelos, percebe-se alguns signos-chave para a compreensão da obra de Tunga como os duplos, a mistura de ficção e realidade, a alquimia e o sonho. Em Semeando Sereias, de 1987, os cabelos e a cabeça decepada, também presentes em outros trabalhos, apontam para referências mitológicas e contos ficcionais traduzidos em composições visuais. Os fios de cabelo representados em tacapes, tranças, escalpos ou pelas linhas do desenho simbolizam o contínuo, já que crescem por toda a vida e demoram a se decompor depois da morte. Até sobre seu nascimento, Tunga criou uma espécie de fábula sobre ter nascido em dois lugares diferentes, na mesma hora, em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Obras que partem de histórias e estórias que surgem de obras.
Questões topológicas de continuidade, dentro-fora e cheio-vazio surgem nos desenhos de toro e infinitos. Oriundas da matemática, estas formas foram incorporadas pela psicanálise, principalmente por Jacques Lacan, na representação da repetição e do contínuo. Interesses em questões herdadas do Surrealismo, movimento que também dialogava com os meandros do inconsciente e do devaneio, são notadas em alguns trabalhos, como na escultura Sem Título da série Morfológica, onde formas que nos parecem conhecidas se fundem e formam outro objeto inusitado. Do mesmo modo, Olho por Olho, um tabuleiro de xadrez em que as peças são dentes em bronze.
O título da exposição – o rigor da distração – retirado de um caderno de anotações do artista, parece ser uma contradição e tem sincronismo com o pensamento de Tunga. Dentro do rigor dos processos produtivos, do equilíbrio das forças, da lida com materiais diversos como chumbo, cobre, aço, borracha, vidro, resina, cera e luz, também há a distração dos sonhos, dos transbordamentos dos desejos, das formas conectadas ou separadas por imãs, dos corpos que se autoenvolvem sem início ou fim. Na imagem dupla de real e ficcional, Tunga constrói uma narrativa simbólica das atrações magnéticas como forças de convergências, também estudadas pela topologia. Forças essas que se unem ou afastam num campo onde “certeza e incerteza se afirmam com a mesma intensidade”. Uma união de elementos improváveis que, juntos, se transformam no que ainda pode nos surpreender.
Tunga: o rigor da distração
Curadoria de Luisa Duarte
Museu de Arte do Rio – MAR
Praça Mauá, 5 – Centro
Terça a domingo, das 10h às 17h
Até 25 de Novembro
Entrada: R$ 20,00 – Meia-entrada: R$ 10,00 (gratuidade às terças)
Classificação livre (há uma sala com desenhos eróticos não apropriada para crianças)












