Vicente de Mello

Vicente de Mello: memória às escuras

Por Valesca Veiga

Em tempos de reprodução de imagens em profusão, invadindo o imaginário coletivo diariamente pelas mídias sociais, a imprevisibilidade experimental dos fotogramas de Vicente de Mello propõe interessante contraponto ao universo da fotografia digital. Com duas exposições simultâneas na cidade do Rio, no Museu de Arte Moderna e na Galeria Lurixs Arte Contemporânea, o artista retoma técnica artesanal dos primórdios das pesquisas fotográficas do século 19, construindo composições singulares sem ajuda de câmera ou negativo.

Processo experimental que também foi utilizado por artistas das vanguardas europeias, como Man Ray e o László Moholy-Nagy, os fotogramas são impressos através da velatura da luz direta no contato com objetos posicionados diretamente sobre o papel fotográfico. As formas obstruem a passagem da luz, imprimindo a silhueta das peças em branco sobre fundo negro, sem relevo ou volume. Remetendo à memória e ao universo particular do artista, os arranjos são concebidos a partir de coleções de itens garimpados em mercados de pulgas, de uso doméstico ou criados exclusivamente para dar formas específicas à configuração das imagens.

No MAM, com curadoria de Eucanaã Ferraz, a série Monolux traz 28 fotogramas inéditos produzidos a partir de fragmentos narrativos da própria história da fotografia, com referência ao material analógico instrumental do passado: câmeras, filmes, slides, álbuns, porta-retratos. A história da arte também se faz presente nas relações com as obras de Caravaggio, Manet, Milton da Costa, Maria Leontina, Joaquín Torres García, Oscar Niemeyer, e outros. Abstratas à primeira vista, as iluminações vão revelando formas reconhecíveis na subjetividade das estruturas em claro-escuro, como o perfil da pintura A amazona – Retrato de Marie Lefébure, de Manet, ou o conjunto de molduras de slides espalhados nos dois fotogramas Carbono 14, Teste I e II, de 2016.

Enquanto na mostra In Orbit, na Lurixs, com curadoria de Ivo Mesquita, a série Lapidus apresenta 22 fotogramas a partir de formas de pedras que, iluminadas e sobrepostas à escuridão do fundo, remetem a corpos celestes e ao universo macrocósmico da ficção científica. A instalação de uma mesa com os itens utilizados informa a posição exata das composições dos fotogramas em escala 1:1. Oriunda de diferentes partes do planeta, a coleção de pedras do artista usada em Lapidus foi reunida durante mais de 35 anos. Transitando entre viagens de asteroides no espaço e pinturas abstratas modernistas, o projeto foi meticulosamente planejado em todas as etapas técnico-artesanais, dando a dimensão peculiar da cuidadosa criação de enquadramentos para além da abstração formal aleatória sugerida pelas imagens.

O procedimento de impressão realizado em um retângulo de 50 x 60 cm, na quase completa escuridão do laboratório, traz à tona a reflexão sobre a experimentação que abre mão de padrões técnicos para se aventurar ao acaso, abandonando o negativo para lidar com a materialidade da luz. Sem recorrer a qualquer tipo de edição ou montagem no resultado final, o processo de revelação do fotograma questiona a reprodutibilidade de imagens em meio à era digital, quando torna-se original único, a obra em si. No infinito impalpável dessas fotografias de Vicente de Mello, tudo parece flutuar em gravidade zero, mas sem deixar de criar nexos entre objeto e “fundo-nulo”, memória e forma, narrativa e abstração, luz e sombra.

Monolux

MAM Rio
Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo
Terça a sexta, de 12h às 18h
Sábado e domingo, de 11h às 18h
Até 30/09/2018
Classificação livre[/vc_column_text][vc_column_text]

In Orbit

Lurixs Arte Contemporânea
Rua Dias Ferreira, 214 – Leblon
Segunda a sexta, de 12h às 20h
Sábado, de 12h às 16h
Até 06/08/2018
Classificação livre