Por Valesca Veiga
Uma das principais proposições de artistas da geração construtiva brasileira, principalmente após o movimento neoconcreto, foi a superação de suportes tradicionais da arte como a pintura de tela de cavalete e a escultura estatuária. Muito além de mero formalismo geométrico, propunham relações estruturais que abrissem novos sentidos para os conceitos de espaço e tempo. A cor que saltava do quadro adquiria tridimensionalidade como elemento-vivo suspenso no espaço. A forma adquiria volume ou “relevo” saltando das paredes para o chão e tornando-se objeto. Neste período profícuo de ruptura com modelos convencionais, a partir do final da década de 1950, a arte reverberava no ambiente, adquiria estruturas dinâmico-espaciais e dialogava com a arquitetura, representando o processo de transformação do homem no mundo. Para concretizar a união entre a arte e a vida era preciso radicalizar a experiência perceptivo-sensorial convocando o espectador a participar, manipular, interagir e, enfim, finalizar o processo criativo do artista através de seu próprio corpo.
Duas interessantes oportunidades de observação das relações entre corpo e artes visuais estão acontecendo praticamente lado a lado, em espaços expositivos vizinhos no Rio de Janeiro. Apesar de proposições curatoriais distintas e não cogitadas em conjunto, as exposições Ivens Machado: Corpo e Construção, na Carpintaria, e Hélio Oiticica: Rhodislândia, no Studio OM-art, apresentam significativa sinergia para uma reflexão sobre a corporeidade como campo de investigação artística.
Rhodislândia faz parte de significativo conjunto de obras de Oiticica que dialoga com a arquitetura das favelas cariocas: os Penetráveis. A instalação remete a cômodos, separados por lonas de nylon iluminadas por cores vivas, típicas dos trabalhos do artista, que as denominava “cor-movimento”. O visitante penetra o ambiente por alguns espaços vazios, enquanto se apropria de outros ao sentar-se ao piano ou numa cadeira, escrever bilhetes ou poemas, modificar a posição dos galhos secos, se assim o quiser. O espectador deixa de ser um contemplador passivo, atuando sobre a obra como participador, em uma comunicação direta pela ação. Hélio Oiticica e Lygia Clark foram os principais expoentes deste novo conceito de arte que deflagrava a corporalidade tátil, visual e semântica como intenção de liberdade. Uma tentativa de rompimento com o paternalismo e a repressão, com a passividade e a apatia, diante dos rumos culturais, políticos, sociais e éticos estabelecidos em tempos ditatoriais. Rhodislândia, montada pela primeira vez em 1971, em Rhode Island, nos EUA, foi projetada para receber performances de diferentes artistas, além do público atuante. Para esta montagem do OM-art, foram convidados Berna Reale, Luciana Magno, Ayrson Heráclito e o coletivo Opavivará.
Ivens Machado pertenceu a uma geração sucessora do Neoconcretismo. Avesso a movimentos e afiliações de grupos, comuns no circuito de arte dos anos 1970, o artista optou por um caminho paralelo desenvolvendo intensa pesquisa sobre os diálogos entre corporeidade e escultura, passando por vídeo-arte, fotografia e performance. As seis produções escultóricas expostas na Carpintaria se apoderam de matérias-primas da construção civil e herdam a austeridade geométrica construtivista, apesar da relação com volumes do corpo. A rudeza do material se equilibra no rigor formal e na percepção de movimento integrada às obras, que também dialogam com a arquitetura e o espaço expositivo. Machado harmoniza o peso do concreto com o alongamento das formas, os detritos e pedras com a flexibilidade das telas, em uma relação quase coreográfica. O tríptico e a série de fotografias inéditas sobre a Performance com bandagem cirúrgica, de 1973, apresentam imagens de frações corporais do artista, envoltas em ataduras, que remetem à asfixia e privação, metáfora da ambiência de opressão da época.
A corporalidade como experimentação está presente nas duas mostras que remontam à proposta de articulação de novas relações estruturais na pintura e na escultura, tendo a atuação corpórea como dispositivo de ação ou reação. Como em arte nada acontece por acaso, Hélio Oiticica e Ivens Machado, com suas obras a apenas alguns passos de distância, trazem à tona a discussão sobre os limites e, principalmente, a presença do corpo como manifestação de liberdade de expressão artística.
Ivens Machado: Corpo e Construção
Carpintaria – Rua Jardim Botânico, 971, Jockey Club
Terça a sexta, de 10h às 19h
Sábado, de 10h às 18h
Até 28 de julho
Entrada gratuita
Classificação livre
Hélio Oiticica: Rhodislândia
Studio OM.art – Rua Jardim Botânico, 997, Jockey Club
Terça a sexta, de 11h às 20h
Sábado, de 11h às 22h
Até 04 de agosto
Entrada gratuita
Classificação livre














